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Conjuntura

Por que ninguém fala sobre a conjuntura nacional? – Parte III

Consumada a vitória, e se valendo de um contexto econômico favorável, os dirigentes petistas puderam intensificar seus esforços para se consolidar no poder, e para fundir as estruturas partidárias com as do Estado. Que banquete, em que se refestelaram tantos “quadros” “sem-teto”, “sem-terra”, “educadores populares”, “metalúrgicos”, etc., com as migalhas que caíam dos pratos das grandes construtoras, dos latifundiários, dos empresários da educação, dos dirigentes industriais, dos banqueiros… “Traidores!”, assim comumente os chamaram os que não escolheram o mesmo rumo. Mas será que isso basta para explicar o que se passou? Não seria melhor começar a buscar os “porquês” nas respostas equivocadas dadas pelas organizações às contradições e aos limites que o capitalismo nos impõem a todos e todas que lutam? Por exemplo, a imitação da lógica estatal e empresarial, com a profissionalização dos militantes, o centralismo, a burocratização, e a busca pelo êxito eleitoral, como se o Estado fosse uma estrutura oca, neutra, esperando para ser ocupado por um bom ou um mal governo, ou como se o caminho eleitoral não sugasse as energias, e não homogeneizasse tudo pela farsa do debate, pelo marketing, pela necessidade de grandes financiamentos, pelos lobbies, etc., enfim, toda essa novela tantas vezes encenada, em tantos lugares e épocas distintas, sempre com um final tão trágico para nós, aqui de baixo.

E para coroar a sua “marcha triunfal”, os “companheiros” petistas se fizeram os anunciadores de um novo mundo, fruto da difusão do crédito pessoal. Em meio aos velhos e novos famélicos, que as “bolsas-isso” e “bolsas-aquilo” evidentemente não eliminaram, o Brasil se torna assim o éden do consumo predatório, a terra prometida dos televisores de plasma e dos telefones celulares de última geração. Aqui se estranha os iguais, na mesma medida em que se idolatra o playboy empresário, o artista da novela, e a nova promessa do futebol. A multidão de moradores de rua; os despejados; os incontáveis jovens pobres – geralmente negros – exterminados pela polícia; o exército de viciados em álcool e drogas, as fileiras de mulheres oprimidas, espancadas, violentadas, reduzidas a meras mercadorias; a falta de médicos e remédios; as horas diárias presos no trânsito; a escravidão pelo dinheiro; a incerteza em relação ao dia de amanhã; a desconfiança; o medo; tudo são ossos do ofício, tudo se torna normal, tudo se tenta esquecer ou justificar como necessário ou inevitável.

Eis aí a grande derrota que sofremos. Em questão de décadas, o ímpeto de um projeto coletivo de transformação social, que mobilizava grandes contingentes populacionais, é substituído por um voraz individualismo consumista. Não é à toa que atualmente em terras brasileiras são requentadas as velhas pataquatas pós-moderninhas do fim das classes, dos “ressentimentos”, das clivagens entre esquerda e direita, da história, enfim, junto com o “relaxa e goza” desesperado, repetido como um mantra por uma horda de esquizofrênicos e depressivos.

Sim, de onde olhamos, são tempos sombrios para aqueles que não colocam um preço em seus princípios e seus anseios, em sua indignação e sua coragem, e para os que não podem se esconder sob a máscara do cinismo. Ora, jamais nos foi regalada a capacidade de escolher as condições nas quais buscamos fazer a história. Mesmo assim, subsiste a necessidade de caminhar, de continuar uma andança que começou em tempos imemoriais, contra imemoriais formas de opressão e de dominação.

Presos a um eterno presente, divididos em mil fragmentos desconexos, incapazes de aprender com o passado, de imaginar e batalhar por um futuro que não seja um simples “mais do mesmo”,  somos condenados a não saber quem somos, e assim, não vivemos o ontem, não conseguimos viver o agora, e continuaremos vegetando no amanhã, indignos. É preciso escutar e aprender a decifrar os signos por meio dos quais os que nos antecederam nos legaram lições preciosas. Faz-se necessário construir nosso senso de história, encontrar e também cerzir os fios invisíveis que nos conectam a um passado de luta, de resistência, de compromisso, de dedicação, de esperança, que não respeita fronteiras, nem o tempo do relógio.

Por mais negativa que seja nossa compreensão do presente, os descaminhos da esquerda brasileira nas últimas décadas nos revela os potenciais de um ascenso de classe sustentado por lutas diretas e experiência coletivas e verdadeiras. E também nos chama a atenção para as nossas vulnerabilidades frente ao reformismo, à covardia, e ao oportunismo. Diante disso, percebemos que negar esse caminho, e fazermos a crítica ao capitalismo como um todo (incluindo, portanto, o Estado, às estratégias eleitorais e parlamentares, e à lógica empresarial e burocrática), bem como nos lançarmos à construção da autonomia, da auto-organização, do poder popular, para além dos discursos, sem dúvida é o mais difícil, mas é, ao mesmo tempo, nada menos que uma questão de sobrevivência.

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Conjuntura

Por que ninguém fala sobre a conjuntura nacional? – Parte II

            Mas é o caso de nos explicarmos melhor. Há poucas décadas, germinaram sob o solo devastado por uma brutal ditadura militar um sem-número de experiências organizativas bastante ricas, diversificadas e significativas. Dentre as mais conhecidas estão: as imensas mobilizações e greves da região do Grande ABC paulista, antecedentes imediatos da criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1983, uma central sindical que logo se estabeleceu em âmbito nacional; as greves dos bóias-frias e a onda de ocupações de terra rurais, que beberam da experiência das Ligas Camponesas e que logo dariam origem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em 1985; e tantas iniciativas urbanas de luta por saúde, educação, moradia, transporte, etc., que reuniram muitas pessoas e deram origem a muitos movimentos sociais. Como sabemos, esses três conjuntos de experiências se relacionam à multiplicação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e sofreram influência da Teologia da Libertação; além disso, eles estiveram bastante implicados na criação e consolidação dos Partidos dos Trabalhadores (PT), em 1980, o “partido do Lula”.

      PT, CUT, MST… Se os mencionamos e os tomamos como representativos é devido à importância que tiveram e que ainda têm; não é simplesmente porque resumem todo o processo histórico que lhes deu origem, de modo algum. Por outro lado, sob essas bandeiras se abrigam tantos esforços, contradições, frustrações, conquistas, disputas, que estamos longe de algo monolítico e homogêneo. Da mesma forma, a despeito de serem expressões do mesmo contexto, e compartilharem uma série de características, seria absurdo simplesmente identificá-los, como se fossem a mesma coisa. Suas trajetórias demonstram isso.

     Na década de 1990, sob a égide massacrante do que se convenciona chamar de neoliberalismo, essas três organizações prosperaram. A CUT e o PT, por motivos que logo mencionaremos e sob o impacto da derrota nas eleições presidenciais de 1989, fizeram-no com uma linha “pragmática” e cada vez menos radical, devotada à disputa por estruturas e à conquista de espaços na máquina estatal (e também nos fundos de pensão e coisas que tais), a coalizões, barganhas, conciliações, conchavos, lobbies, e por aí vai. Já o MST cresceu e se fortaleceu principalmente por meio do caminho da luta direta, fazendo diversas ocupações de terras, e, no interior de seus acampamentos e assentamentos, tendo de considerar as formas de sociabilidade de modo mais integral, e se colocar às voltas com diversas questões práticas relativas à produção, à educação, à formação política, entre outras.

        De todo modo, o fortalecimento dessas e de outras organizações criaram um ambiente aparentemente promissor, e apesar das singularidades de cada uma delas, das disputas, das contradições, o fato é que uma parte bastante expressiva da “esquerda” brasileira apostou pesadamente no caminho capitaneado pelo PT, sobretudo diante das perspectivas reais de vitória de Lula nas eleições de 2002. Com isso, a força e a vitalidade de boa parte das iniciativas de base (ou desde “baixo”) minguaram, e mesmo organizações que se mantiveram combativas freqüentemente se burocratizaram e se engessaram.