Ditadura ontem e hoje

 A luta do povo e a ditadura

Nos últimos dias, o tema da ditadura militar foi muito discutido nos grandes meios de comunicação, mas muitas coisas importantes foram distorcidas ou omitidas. Houve quem defendesse o regime militar, mas na maioria dos casos as manifestações eram de crítica à truculência e ao autoritarismo dos militares, e se repudiou a censura, a tortura, as mortes, e o desaparecimento daqueles que se opunham à ditadura.

Ditadura-Militar-PinochetIsso é positivo, e em grande medida é resultado dos esforços de familiares das vítimas dos militares e de organizações políticas que lutam pelo chamado “direito à memória e à verdade”. Ocorre que nos grandes meios de comunicação o sentido geral da discussão é sempre o de justificar a ditadura como resposta à “ameaça socialista”, de apresentá-la como algo do passado, e de exaltar o triunfo da “democracia”. Em oposição  a isso, algumas coisas devem ser ditas:

1) A não ser em algumas cabeças delirantes, não havia possibilidade de um “golpe” de esquerda no Brasil, e muitos menos de uma revolução socialista. Com os governos Jânio Quadros e João Goulart,images parcelas das elites perderam temporariamente o controle direto sobre o executivo federal, e houve a possibilidade de implementação de políticas que significariam um freio à concentração de renda e de propriedade. Além disso, pela orientação nacional-desenvolvimentista desses governos, o capital internacional e os imperialistas norte-americanos temiam que seus interesses fossem afetados.

Sendo as elites nacionais extremamente truculentas e vorazes, e conectadas ao capital internacional, o reformismo de esquerda foi suficiente para precipitar o golpe.

images (1)2) Nesse sentido, o golpe não foi nem meramente militar, e nem meramente nacional. Sem o aporte de grandes empresas nacionais e internacionais, sem a tutela norte-americana, e sem o apoio de parcelas da população, a ditadura não teria sido instaurada, e não duraria o tanto que durou.

3) Os grandes vencidos da ditadura permanecessem esquecidos: inúmeros militantes populares foram torturados, mortos e desaparecidos, por vezes massacrados junto com suas famílias. E mesmo quando seus familiares e amigos sobreviveram, eles não dispunham – e continuam sem dispor – de meios de denunciar e de investigar as mortes e as torturas. A história que é contada é a história dos vencedores, e de modo geral, apenas as parcelas dissidentes das elites e da classe média dispõem de recursos para lembrar de seus mortos.

Além disso, como de costume, as parcelas mais pobres da população,Cela-600x380 e particularmente os negros e os indígenas foram maciçamente atacadas. “Vadiagem”, “alcoolismo”, “pederastia”, “desobediência”, “distúrbio da ordem”, “furtos”, entre outras acusações foram motivo para prisões, torturas e assassinatos em massa. E quem escuta falar, por exemplo, nas cadeias e nos campos de concentração indígenas que se multiplicaram durante a ditadura? (ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui).

4) Não houve qualquer acerto de contas com a longa tradição de ditaduras brasileiras. É por isso que sob a chamada “democracia” a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos resultantes da atuação das forças repressivas do Estado se generalizaram, tendo images (2)como alvo principal as mesmas parcelas da população massacradas sob o regime militar. As vítimas contam-se aos milhares, sob governos encabeçados por antigos rivais dos militares, incluindo ex-guerrilheiros brutalmente torturados. Enfim, o Estado autoritário é tão poderoso que consegue  incorporar boa parte de seus opositores (e aqueles que não se vendem e não se submetem costumam ser aniquilados).

5) O poder dos grandes meios de comunicação, que constituíram um dos pilares do regime militar, é hoje tão grande e crescente que vigora na prática uma pesada censura. E os censores, que não deixam1010344_437475736388132_1027664314_n passar uma vírgula que não esteja de acordo com os interesses das elites, não são mais uma comissão de militares desmiolados, mas sim os próprios dirigentes dos grandes jornais e redes de televisão.

Quem luta sente tudo isso na pele, vendo ignorados seus gritos ou distorcidas as suas reivindicações; sofrendo com todo tipo de perseguição, discriminação e criminalização.

Enfim, as atrocidades da ditadura militar se reproduzem, aprimoradas e generalizadas, sob a “democracia”. A liberdade de 50 anos ditaduraexpressão, a liberdade de manifestação, a igualdade perante a lei, o direito de voto, tudo aquilo que é cinicamente louvado pelos políticos e pela mídia não passa de uma grande mentira, um véu que toscamente procura esconder uma enorme rede de opressões, de desigualdade, de exploração, contra a população trabalhadora.

A crítica à ditadura deve servir para iluminar e enriquecer a crítica à chamada “democracia”, fortalecendo as bases de uma prática emancipadora. Do contrário, ela joga um papel conservador que só reforça o autoritarismo e a violência próprios dessa sociedade doente em que vivemos. 

 

 

 

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Uma resposta para “Ditadura ontem e hoje

  1. Boa análise,companheirxs. De fato, não podemos ter ilusões com a legalidade e a democracia (de natureza sempre burguesa)

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