Dia da Consciência Negra

O massacre e a consciência negra

De tão terrível que está a situação, fica até difícil dizer algo sobre a opressão contra os negros e negras.

A dificuldade não existe pelo fato das coisas serem muito complicadas, muito sofisticadas, nem nada disso. Ao contrário, a coisa é bem tosca e evidente. Por exemplo, não é novidade para ninguém que as principais vítimas do massacre promovido pelo Estado, que é regra, mas que se intensificou bastante nos últimos meses, são os jovens negros. E ninguém ignora  que as mulheres negras sofrem não apenas em função do caráter racista desse mundo em que vivemos, mas também pelo caráter machista e patriarcal da sociedade brasileira, e das sociedades capitalistas em geral. Qualquer pessoa que não seja pilantra consegue identificar essas opressões em diversos aspectos da vida: escolarização, violência doméstica, violência policial, renda familiar, expectativa de vida, mortalidade infantil, acesso à saneamento básico etc., etc. e etc.

Desse modo, é difícil falar sobre o que temos vivido justamente porque as palavras não conseguem expressar os horrores que esse mundo não pára de produzir, e que recaem principalmente sobre certas parcelas da população, sobretudo a parcela pobre, negra e moradora das periferias. Esses horrores se reproduzem ao longo do tempo, assumem novos contornos, novas características, às vezes até se disfarçam, mas nunca mudam o que realmente são, o que se revela em toda sua crueza na matança que ocorre nas periferias de São Paulo, matança que a mídia contabiliza fajutamente todos os dias, como se tratasse apenas de números.

E é ainda mais difícil falar sobre tudo isso num momento em que pouco conseguimos fazer diante de nossa condição de escravos das coisas e do dinheiro, em que somos incapazes de assumir o controle sobre nossas próprias vidas, e que somos impotentes diante da violência dos despejos, da violência policial, da violência do sistema prisional, e de tantas outras formas de violência que se abatem sobre nós.

Assim, se não quisermos cair em papo furado, falar em consciência negra só pode significar falar em união, organização e luta, não para dourar nosso grilhões, e amenizar a nossa escravidão, mas sim para mudar as condições que tornam possível existir grilhões e escravidão. Consciência negra é assim consciência de classe, e consciência de classe se define pela ação revolucionária. Todo poder ao povo!

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