Arquivo do mês: março 2012

Não te Cales – Rede de familiares de presos e presas

Periferia contra o Encarceramento – Primeiro Informativo

 

Rede de familiares de presos e presas

Não te cales: Periferia contra o Encarceramento

Nos primeiros dois meses deste ano a população carcerária  aumentou em mais de 5 mil pessoas só no Estado de São Paulo. E se tiver meia dúzia de ricos nesse meio, é muito, porque todo mundo sabe que a tal “justiça” não é cega, mas sim CÍNICA, e serve para favorecer os endinheirados e perseguir os pobres, principalmente se forem negros.

Por causa desse encarceramento em massa,  a experiência da prisão marca a vida de milhões de moradores da periferia que sofrem com a discriminação,  a falta de informações, o oportunismos de advogados pilantras, a lentidão  dos processos, as humilhações das filas de espera, das revistas,  as terríveis condições das prisões, e por aí vai.

É por isso que estamos criando  uma rede de solidariedade entre familiares e amigos de presos e presas, no sentido de trocarmos experiência, aprendermos  a entender os processos, a correr atrás dos benefícios e dos direitos, e  nos organizarmos para combater esse sistema penal e  prisional tão injusto e perverso.

Depois do Despejo II

Motivos Escancarados

Quando falamos sobre os escombros que ainda testemunham a destruição da Vila Brejinho, perguntamos o motivo desse tipo de ação. A resposta é dada pela própria Prefeitura, porta-voz das grandes construtoras e imobiliáriasSegundo uma diretora da Secretaria de Habitação, Maria Cecília Sampaio, “Pra ser cidadão em São Paulo, tem que pagar”. E no mesmo sentido, ela sugere à população mais pobre que procure cidades menores “pra poder aguentar” (veja mais aqui).

Aquilo que a gente e outros movimentos têm denunciado há tempos está mais do que escancarado, e não dá para ficar surpreso, já que a ditadura do grande capital imobiliário parece estar fora de questão. Para dar uma idéia da situação, as empresas que financiaram a candidatura do Kassab receberam mais de R$ 2 bilhões em contratos, entre 2009 e início deste ano (veja mais aqui). E não foi só o Kassab que elas financiaram, não, mas os candidatos a prefeito e a vereador de tudo quanto é partido, sempre garantindo os retornos futuros, seja qual for o cenário.

É por isso que uma resposta a essa situação só pode vir de quem sofre com essa ditadura, a população pobre, que é a principal vítima do rolo compressor da especulação imobiliária.

Imagens das últimas atividades

Só para registrar…

Fica aí o registro de algumas das atividades em que participamos; espaços construídos na raça, com várias pessoas trincando do jeito que podem, sem cobrar dinheiro e nem pagar simpatia pra ninguém.

Afinal, de que outro jeito daria pra juntar um hard core sangue-no-olho com uma idéia sobre a repressão do Estado, o Massacre do Pinheirinho, e a resistência do povo? 

Só assim pra fazer uma cultura que seja um instrumento de luta e de organização das quebradas. Logo menos, tem mais!

Depois do Despejo I

Escombros na Vila Brejinho

Há mais de dois anos a Vila Brejinho deixou de existir, destruída pela Prefeitura, e até hoje nada foi feito no lugar. Onde antes havia  uma comunidade, ainda encontramos o entulho das casas derrubadas.

As famílias ainda recebem o “auxílio-aluguel” de  400 reais, mas não tem notícia de quando receberão a “alternativa habitacional definitiva”  de que fala o contrato.

Então fica a pergunta: várias casas que não estavam em risco foram destruídas, mas a troco de quê? Para acabar com os lares a Prefeitura não perde tempo, mas para construir as novas moradias e criar algo no lugar que despejaram, aí não há pressa nenhuma.


É nóis!

Registro do último encontro 

Entre final de fevereiro e primeira metade do mês de março muitas coisas rolaram por aqui. Deixamos aí umas imagens do encontro de dois anos da rede extremo sul pra registrar este momento de reflexão sobre a conjuntura e nossas tentativas de militância, mas também de curtir juntos a Trupe Lona Preta com sua nova peça e com o Conselho de Criança – grupo de rap lá do Campo Limpo.  Ganhamos também camisetas lindas, que já começaram a colorir nossas ações.

E o mais importante é que ao nos juntarmos pra refletir estes dois anos, contamos com presença de companheiros e companheiras muito importantes para continuar e fortalecer a caminhada de nosso movimento.

Protesto na UBS do Gaivotas

A coisa está feia também na UBS do Jd. Gaivotas

Na manhã de hoje, ocorreu um novo protesto em frente a uma UBS. Dessa vez foram os moradores do Jd. Gaivotas que se mobilizaram; o que motivou a manifestação foi a demissão de um médico bastante dedicado, que há anos atendia a comunidade. Mas também foi denunciada a falta de transparência na gestão da UBS, e a ausência de qualquer diálogo real entre os gestores da Associação Saúde da Família – a mesma instituição que controla a UBS do Residencial Cocaia e as demais UBS da região – e os moradores. Muitas pessoas disseram que nem mesmo o Conselho Gestor é levado em consideração, e que todas as decisões são tomadas de cima para baixo, sem qualquer participação popular e consideração pela comunidade.

Hoje já são alguns bairros se organizando contra a situação deplorável do sistema de saúde pública, amanhã esperamos que essa centelha se espalhe, e que o Residencial Cocaia, o Cantinho do Céu, o Gaivotas, o Eliana, o Lago Azul, o Lucélia, e tantos outros bairros se unam nesse mesmo objetivo. É só assim que as conquistas virão.

Sarau do Recanto

Barulho Contra a Opressão do Estado

Mudanças e Mulheres

A construção do poder popular e as mulheres

No dia-a-dia das lutas aqui no Extremo Sul, somos nós mulheres, que seguramos a maior parte dos B.O.s, trincando  em todas as lutas: no enfrentamento aos despejos, contra a violência do sistema prisional e penal de tantos presos e presas nas periferias, à situação precária da saúde, ao transporte massacrante, na batalha pela abertura de creches, pelo saneamento, pelo asfalto, pelo abastecimento de luz e água, e tantas outras. Mesmo assim, mesmo correndo pelo certo, acabamos obrigadas a enfrentar preconceitos e opressões, até em nossos próprios lares.

Um dos pilares dessa ordem social perversa em que vivemos é a opressão das mulheres pelos homens; se ele não for derrubado, toda essa estrutura de dominação continuará em pé.

Saudações a todas as guerreiras que não baixam as cabeças na construção de um verdadeiro poder popular.

Periferia luta pela saúde

Luta pela Saúde no Grajaú

Neste vídeo, alguns moradores do Pq Residencial Cocaia e do Cantinho do Céu denunciam a terrível situação do atendimento de saúde na região, e reivindicam a abertura imediata da UBS Cantinho do Céu, há vários anos prometida pelo governo.

Protesto de hoje

A primeira de uma série de ações

O Protesto de hoje foi o início de uma jornada de manifestações pela melhoria nas condições de atendimento de saúde no Grajaú.  Com essa pressão de moradores do Recanto Cocaia e do Cantinho do Céu que se reuniram hoje em frente a UBS do Pq. Residencial Cocaia, foi feita a panfletagem com os usuários, não se permitiu a entrada das gestoras da Associação Saúde da Família e foi marcada uma reunião de negociação entre a Supervisão da OS e a população hoje as 14 horas.

Não engoliremos mais promessas, queremos solução!! Abertura imediata da UBS do Cantinho do Céu e condições dignas de atendimento pro povo do Grajaú!!!

A Saúde está morrendo, mas os Lucros…

Pela abertura imediata da UBS do Cantinho do Céu

Estamos realizando hoje um protesto contra a situação terrível do atendimento público de saúde nos bairros do Pq. Residencial Cocaia e do Cantinho do Céu. A lista de problemas não tem fim, é do tamanho da violência e da humilhação a que milhares de moradores são submetidos sempre que têm algum problema de saúde.

Enormes filas de espera, falta de médicos, de remédios, estrutura inadequada (pessoas sendo atendidas em associações de moradores, igrejas, garagens, bares, no porão da UBS, que tem 1 banheiro para todos os 70 mil usuários, homens e mulheres, e 1 banheiro para todos os 165 funcionários, homens e mulheres), senhas restritas, que ainda por cima não garantem o atendimento, meses de espera para a realização de exames… Tudo isso causa um grande sofrimento para os usuários e também para os funcionários do posto e das equipes de saúde.

Da parte dos “de cima” – o governo e a empresa responsável pela gestão da UBS Residencial Cocaia e pelas equipes de saúde do Residencial e do Cantinho do Céu -, o que se escuta são promessas e mais promessas. Enquanto isso, os gestores da Associação Saúde da Família estão felizes e satisfeitos, acumulando lucros, e se aproveitando do nosso sofrimento. Pois é, quanto mais precarizada a saúde, maior é o dinheiro que vai para o bolso dos gestores.

A privatização da saúde pública tem conseguido realizar um verdadeiro milagre: piorar o que já estava péssimo! A única solução a gente sabe qual é: o controle popular do sistema de saúde. Mas um passo de cada vez: nesse momento, exigimos a abertura imediata da UBS do Cantinho do Céu!!! Chega de enrolação!!! 

A saúde está morrendo, mas o povo está se organizando

Protesto pela UBS Cantinho do Céu

Amanhã, terça-feira dia 6 de março, moradores do Pq Residencial Cocaia e do Cantinho do Céu farão um protesto em frente à UBS do Residencial Cocaia, denunciando a precariedade do atendimento, e exigindo a abertura imediata da UBS Cantinho do Céu. Levem suas panelas, apitos e disposição e vamos somar nessa importante luta, a primeira de várias que teremos que travar para reverter essa situação calamitosa. Amanhã, 6h da manhã, em frente à UBS do Residencial Cocaia.

2 Anos da Rede Extremo Sul

Manifesto de 2 Anos de Existência da Rede Extremo Sul

A violência do Estado e dos proprietários contra o povo sempre existiu, mas cresceu bastante nos últimos tempos. Nas grandes cidades, essa violência aparece de várias formas: a destruição de comunidades inteiras pelos despejos, as ações higienistas e a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, a militarização da gestão pública, o aumento da presença da PM nas ruas e nas quebradas, o que significa maior número de homicídios e o encarceramento em massa, sobretudo da juventude pobre e negra das periferias.

Em São Paulo, o Massacre do Pinheirinho, em janeiro deste ano, é um caso muito emblemático de repressão e da demonstração de poder contra o povo organizado. Neste momento se escancarou que o interesse econômico pode ser colocado acima de qualquer coisa, e principalmente da vida de familías e de militantes.

Do ponto de vista do povo e da construção do poder popular é preciso, portanto, reconhecer que vivemos em tempos difíceis. Diante dessa situação, é muito fácil para um movimento popular ficar vendendo ilusões, preso ao imediatismo, ao jogo da mídia, às mesas de negociação com o Estado, e realizando mobizações que parecem radicais, mas que são pensadas por uma meia dúzia que se acha “iluminada”, enquanto a maioria das pessoas que participam delas nem sabem direito o que estão fazendo, e acabam virando massa de manobra, em busca de um “salvador da pátria”. Em vez de atuar pelo fim da opressão e pela emancipação, o movimento acaba fazendo o contrário. Não é à toa que tantos lutadores de ontem são os inimigos de hoje, ocupando seus cargos no Estado e nas empresas, e usando o conhecimento que eles adquiriram no interior das lutas contra o povo organizado.

As lutas diretas em reação às ofensivas do Estado e das empresas são fundamentais, mas a opressão capitalista atua o tempo todo, em todos os espaços, e pelos mais diversos meios; por isso, a construção do poder popular exige também formas de organização permanentes, cotidianas, levantando as mais diversas bandeiras, de maneira integrada, e tentando criar laços de solidariedade, de companheirismo e de ajuda mútua, opostas ao “cada um por si” que domina em todo canto. É no interior desses processos organizativos de longo prazo que as lutas irão adquirir um caráter de libertação, e que serão acumuladas as forças para garantirmos nossas conquistas.

Além da questão da moradia e de outras necessidades básicas da vida, relacionadas à saúde, ao transporte, à educação, etc., recentemente começamos a encarar de frente outros desafios que são muito presentes em nosso dia-a-dia: um deles tem a ver com o encarceramento em massa, e nesse sentido temos nos organizado numa rede de familiares de presos e presas, tentando nos fortalecer contra o sistema prisional, penal e a violência policial que tanto nos oprime. Além disso, queremos criar formas de auto-sustentação que contribuam com nossa autonomia, e confrontem, ainda que de maneira tão modesta, algumas formas de exploração da qual somos vítimas. Assim, estamos iniciando algumas pequenas experiências produtivas, por meio da autogestão, e somando nas lutas de cooperativas de reciclagem da Zona Sul, que têm sido alvo de um projeto governamental de tirar das mãos dos catadores o controle sobre o trabalho.

Os nossos espaços de organização são mínimos, localizados, cheios de problemas. Uma festa em que umas pessoas fazem uns bolos, outras descolam umas bebidas, outras enfeitam a rua, e se compartilha tudo de graça; um sarau no meio da rua, em que se partilha música, poesia, dança e se troca altas idéias; uma projeção de vídeo e uma discussão com a criançada; pequenas reuniões; pequenos protestos; é essa nossa escala de atuação hoje. Mas em todas as nossas ações, onde não entra nem dinheiro nem voto, tentamos afirmar a auto-organização – o fazer “nós, por nós mesmos” – e a nossa independência em relação ao Estado, aos politiqueiros e aos patrões.

E isso, inclusive quando eles se disfarçam atrás de uma pele de cordeiro, “amigos do meio ambiente”, “amigos da periferia”, ou mesmo “amigos da cultura”, agenciadores que buscam transformar tudo em mercadoria, inclusive a cultura popular de resistência, e transformar os produtores dessa cultura popular em pequenos “empreendedores”, debaixo de suas asas. Mas aqueles comprometidos com os processos de mudanças reais nas comunidades sabem que nada que não seja construído pelas nossas próprias mãos e cabeças serão conquistas verdadeiras para a periferia!

Considerando esse contexto em que vivemos – no qual as formas de organização e de lutas diretas estão muito desacreditadas e a repressão rola solta – são essas algumas de nossas tentativas de colocar em prática uma proposta política de resistência, de enfrentamento, e de auto-organização popular. Para tanto, é necessário fortalecer nossa prática nas comunidades e nos coletivos que integram a Rede, melhorar nosso planejamento, nossa divisão de responsabilidades, nossa capacidade de avaliação e de crítica sobre o que fazemos, assim como o espaço de iniciativa de cada um de nós. Este processo é lento, difícil, e se insere numa longa história de lutas, no interior da qual o esforço e o compromisso de cada um faz muita diferença.  

Nois é pouco, mais é zica, mas aos poucos deixaremos de ser tão poucos, e seremos ainda mais zicas, na construção do poder popular nas nossas quebradas!

Periferia luta! Ontem, hoje e sempre.

Rede Extremo Sul, fevereiro de 2012