Manifesto de um ano da Rede de Comunidades do Extremo Sul

Manifesto:  Um Ano de luta da Rede de Comunidades do Extremo Sul

O povo de nossa região, assim como o povo de toda a periferia, sempre lutou por suas necessidades: cada escola, cada posto de saúde, cada linha de ônibus, cada rua asfaltada, até o acesso à água e à luz, foram resultados de várias batalhas no passado, feitas por muitas pessoas que sabiam onde o calo apertava, e acreditavam que a vida podia ser melhor. Essa consciência, essa união, e essa organização popular que trouxe uma série de conquistas, já fizeram tremer os “poderosos”, e poderão fazer novamente.

Foi com esse espírito que, em fevereiro passado, criamos a Rede de Comunidades do Extremo Sul, buscando fortalecer essa cultura de luta, de resistência e de solidariedade de classe, num momento em que reina o individualismo, a acomodação, e a arrogância de querer ser melhor do que o vizinho, e portanto de não se importar com suas dores e suas alegrias.

Na época de surgimento da Rede Extremo Sul, sofríamos não apenas com os despejos que se tornaram comuns em nossa região e em várias outras regiões de São Paulo, mas também com a calamidade das enchentes que atingiram algumas comunidades. Diante dessa situação, travamos pistas, marchamos, protestamos e até nos dispusemos a negociar com nossos inimigos, os donos do poder. Perdemos algumas batalhas e conseguimos resistir a outras ofensivas; vimos como é grande a força da estratégia usada pelo Estado e das construtoras para nos dividir, fragmentar nossas lutas, aliando a entrega de migalhas – que compram algumas lideranças e silenciam muitos dos que estão sendo removidos -, a uma repressão crescente, tratando os problemas sociais como crimes da população pobre contra o Estado, e mobilizando a polícia para não permitir qualquer manifestação do povo indignado com as injustiças que sofre.

Diante dos cheques-despejos disfarçados de bolsa-aluguel, e da falta de uma alternativa habitacional real, percebemos a mentira do discurso “humanitário” dos governantes, que dizem estar fazendo isso para nosso próprio bem. Outro discurso que se revelou mentiroso é o da defesa do meio ambiente: por que não se faz nada com as grandes empresas e as grandes mansões que também se encontram em áreas de mananciais? Por que não se cria infra-estrutura nas nossas comunidades, como redes de esgoto e sistemas eficientes de coleta de lixo? Por que não se dá alternativa aos que são removidos, obrigando-os assim a ocupar uma nova área à beira da represa ou de um córrego? Logo descobrimos a resposta destas e de outras perguntas: que se danem as nossas vidas ou o meio ambiente, quando se trata de encher de dinheiro os bolsos dos “poderosos”. E é isso que estão fazendo as grandes empresas – construtoras, incorporadoras, imobiliárias – e muitos políticos, que aliás têm suas campanhas financiadas por essas empresas.

Por mais duros que tenham sido esses ensinamentos, eles serviram para nos fortalecer, de tal forma que, ao completar um ano de existência, temos sim o que comemorar. Nesse período, passamos a nos reunir periodicamente para discutir os problemas de cada comunidade, tirar nossas pautas, decidir coletivamente nossas próximas batalhas. Outras comunidades se juntaram à Rede, sendo elas também vítimas da violência dos despejos e colocadas em situação de risco por obras que têm em vista o lucro e poder de alguns, mas não a melhoria das condições de vida da periferia. Lutamos pela moradia, mas também lutamos com as mães e reconquistamos juntos com essas mulheres guerreiras o direito à creche, que foi violado pela privatização do sistema de educação infantil; estamos juntos com estudantes, professores e comunidades que lutam pelo fim da opressão e autoritarismo no interior das escolas e pela qualidade da educação; e também com lideranças que lutam pela melhoria do transporte e da saúde de nossa região. Junto aos grupos de cultura, nos fortalecemos ocupando espaços e ruas, becos e vielas de nossas comunidades, criando autonomia para nossas manifestações que aliam uma arte e uma comunicação produzidas por nós mesmos com a luta cotidiana. E tivemos a satisfação de travar contato com outras lutas, como a iniciativa combativa e transformadora de cooperativas de catadores de papel, com quem temos todo o interesse em caminhar juntos.

Comemoramos também porque aprendemos com as derrotas e sabemos que nossos desafios são imensos, e que estão na ordem do dia de toda a periferia. Os próximos tempos serão sombrios, pois com o lucrativo projeto de transformar a imagem da cidade para os mega-eventos, como a Copa do mundo e as Olimpíadas, os ataques contra as populações pobres de São Paulo irão aumentar. No entanto, a cada dia tomamos mais consciência de nossa classe, reanimando a solidariedade entre nós, e percebemos que “nós” somos milhões. Estamos no extremo sul da cidade, mas também nas imensas periferias mundo afora.

Sabemos que as lutas que travamos são muito pequenas, insuficientes, localizadas. Mas temos ousadia de lutar, e de seguir um caminho honesto e autônomo, sem ficar debaixo da asa de políticos, de ONGs, de empresas, e sem nos subordinarmos ao Estado. Seguiremos dedicados à nossa organização de luta da periferia, por uma sociedade sem classes.

As tarefas do nosso tempo nos desafiam a estarmos sempre nos renovando, mudando de estratégias, propondo novas formas de nos organizarmos, diversificando nossas bandeiras. Hoje acreditamos ser importante articular e unificar algumas experiências organizativas que estão sendo desenvolvidas em nossa região, mas também em outras. Se buscamos combater com nossa prática a fragmentação das lutas, a divisão entre líderes e liderados, entre os que pensam e os que executam, entre os que mandam e os que obedecem; se somos contra a profissionalização da prática política, e a aplicação de modelos e fórmulas prontas, que não respeitam as realidades de cada lugar, pensamos também que não podemos cair no isolamento. Nos próximos meses, junto com outros companheiros e companheiras de caminhada, nos dedicaremos à criação de uma ferramenta organizativa que garanta ao mesmo tempo a autonomia das iniciativas em andamento, mas que as unifique em torno de bandeiras e estratégias comuns.


 

 

A periferia está em luta!

Rede de Comunidades do Extremo Sul, fevereiro de 2011.

 

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7 Respostas para “Manifesto de um ano da Rede de Comunidades do Extremo Sul

  1. Penso que todas as iniciativas são importantes, embora nem tudo que façamos signifique algo. As lutas significam muito, e mais que significarem são necessárias. O momento exige construirmos algo que permita ser um instrumento de luta de fato, talvez uma de nossas tarefas seja repensar quais são os intrumentos. A rede têm se proposto a pensar tais questões.

  2. muito bom! parabéns pela luta!

  3. mauro scarpinatti

    Valeu pela luta e pela mobilização. Há tempo participo de outras lutas na Região, e gostaria de ter um contato mais frequente e direto com a Rede Extremo Sul.
    Abç

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