Arquivo do mês: janeiro 2011

Relato do ELAOPA

Lutas em comum no encontro de organizações populares autônomas

No penúltimo final de semana (dias 22, 23 e 24 de janeiro) aconteceu o IX Encontro Latino Americano de Organizações Populares Autônomas (ELAOPA), na cidade de Jarinú – SP, no Centro de Formação Agroecológica do MST.

Alguns membros da Rede Extremo Sul e do RadioAtivo estiveram presentes, tendo a possibilidade de conhecer e trocar experiências com grupos e movimentos organizados de diversos estados brasileiros e da América Latina. No geral, todas as organizações presentes compartilhavam alguns princípios básicos da atividade política: a autonomia em relação a Estado, partidos políticos, ONGs e coisas do tipo. Divididos em comissões tais como trabalho comunitário; cultura e comunicação; educação; estudantil; gênero, raça e etnia; muralismo; questão agrária e ecologia e sindical, os militantes puderam relatar suas atuações, dificuldades, perspectivas de luta e resistência e traçar possíveis linhas de ação conjunta.

Na edicão deste ano, o ELAOPA procurou desenvolver as discussões tendo por base a questão do plano de intencão para a Integracão da Infraestrutura Regional Sulamericana, o plano IIRSA. Trata-se de um projeto  assinado em 2000, encabecado por governos e instituicões financeiras, que prevê grandiosas intervenções nas áreas de transporte, energia e comunicacões. Obviamente que na mira destes grandes investimentos, e constando apenas como obstáculos, estão inúmeras comunidades dos doze países da América Latina que assinaram o acordo. Apesar de quase não se ter muita notícia desta iniciativa, estamos falando de um conjunto obras, remoções, inundações que já estão em curso e que, à margem do que pensam as milhares de pessoas que já estão sendo diretamente afetadas, visam assegurar o livre fluxo de mercadorias. Para se ter uma idéia do impacto do IIRSA, basta mencionar que as obras do Plano de Acelaracão do Crescimento (PAC) e para a Copa do Mundo devem ser apenas uma faceta do enorme desafio que temos pela frente.

Seria impossível relatarmos, aqui, cada uma das organizações com quem trocamos  impressões e contatos. Mas é possível dizer que são muitos os grupos e coletivos que, espalhados pelos estados do Brasil e países da América Latina, tocam experiências de organizacão popular muito importantes, ainda que pequenas. São diversas as iniciativas de luta que se pautam por alguns princípios parecidos com aqueles que procuramos seguir, ou seja, a autonomia e a prioridade do trabalho de base na construção da luta. E isto nos deixa animados.

É claro que, em se tratando de grupos autônomos, as dificuldades também existem e são tremendas. Mas para isso é que servem os encontros, para que se apreenda com os erros dos outros e compartilhe-se táticas e estratégias de lutas com sucesso.  Também sob este aspecto, o encontro foi bastante frutífero.

Saudações a todas as organizações e pessoas que participaram do encontro.

Arriba los que lucham!

 

Fotos de Lucas Duarte de Souza.

Cultura e resistência popular

Cultura e resistência popular

Eis aí um registro do processo de inauguração da Casinha das Mães: Cultura e Resistência Popular. Uma parte do trampo já foi feita, mas agora falta o mais importante, preencher a casa de atividades e fazer dela um verdadeiro espaço autônomo de organização da comunidade do Cantinho do Céu, fomentando outras iniciativas em nossa região.

Operação Córrego Limpo? E quem trabalha é o povo!

Moradores são obrigados a limpar o córrego

Diante do risco de novas enchentes, moradores do Jardim Lucélia se viram obrigados a se juntar para limpar o córrego, realizando o que a Prefeitura se comprometeu a fazer e não faz. Sem os equipamentos necessários, e nalguns casos até sem botas e luvas, os moradores desceram no leito do córrego e retiraram dele grandes quantidades de lixo, e principalmente de entulhos, boa parte deles resultado da obra de canalização do córrego que a Prefeitura começou a fazer, mas  não concluiu.

Temendo a repetição da destruição que ocorreu no ano passado, os moradores abriram mão de seu domingo e se expuseram assim a todo tipo de doenças.

Sonhamos com o dia em que não dependeremos de ninguém, e faremos juntos e por nós mesmos aquilo que necessitamos.

No entanto, enquanto esse horizonte é ainda tão distante, não é possível aceitar que o “poder público” nem mesmo realize a limpeza dos córregos que cruzam nossas comunidades. É realmente lamentável, e não podemos deixar que essa situação prossiga.



Risco de Desabamento no Jd. Lucélia

Risco de Desabamento no Jd. Lucélia

Em muitos pontos da cidade de São Paulo estão ocorrendo desabamentos e inundações. Em geral, são tragédias que ficam ocultas, como se fossem problemas isolados e individuais. O Estado tem lidado com essa situação por meio de uma mistura de omissão e de criminalização das famílias afetadas, muitas vezes aproveitando o desastre para levar adiante suas políticas de despejo em massa, em favor da especulação. Ao invés dos tão falados investimentos em infra-estrutura, ou em políticas habitacionais, o que vemos é o terrorismo de Estado contra a população pobre. Precisamos reagir!

Uma comunidade destruída

Uma comunidade destruída

Não é só o calor das lutas que deve ser lembrado, no sentido de nos fortalecer. Também a destruição que o Estado e o grande capital promovem deve ser encarada. Esse pequeno vídeo lembra da Vila Brejinho, que desde o primeiro semestre do ano passado não existe mais…

Comunidades do Jd Ângela

Comunidades do Jd. Ângela

Como era de se esperar, também no Jd. Ângela várias comunidades sofrem com falta de infra-estrutura e com ameaças de despejo, vítimas da especulação imobiliária. E, para piorar, em temporada de chuvas são comuns os deslizamentos de terra e outras tragédias, como têm acontecido em vários pontos da periferia de São Paulo. No entanto, também lá existem iniciativas de resistência e de organização popular. Fomos convidados a travar contato com essa realidade, com o objetivo de unir forças. O vídeo abaixo mostra um pouco da realidade de algumas comunidades da região, e relata um despejo acontecido em 2006, no Boulevard da Paz. A mensagem dos moradores é clara: não deixaremos isso se repetir!

Viva a luta do povo da periferia!

Novas enchentes no Jd Pantanal

Novas enchentes no Jd. Pantanal

Infelizmente, não é mais possível a surpresa diante de calamidades que se abatem sobre a população pobre; elas são a regra, como fica evidente na nova inundação das diversas comunidades do Jardim Pantanal. Enquanto a grande mídia corre atrás das desgraças e as transformam num grande espetáculo – “a culpa é de São Pedro, e das populações invasoras, criminosas e irresponsáveis, que se colocam em risco e que jogam lixo na rua” -, o principal é escondido. As violências e as opressões históricas, sempre renovadas, contra a população pobre, hoje mais uma vez traumatizada, desalojada, exposta a todo tipo de doenças e sofrimentos, e sem perspectivas.

Com o fim dos tempos chuvosos, em poucos dias todos os desastres ficam esquecidos. As famílias em áreas de risco têm suas casas removidas, obrigadas a trocar sua moradia pela incerteza do auxílio aluguel que virou a única política habitacional que têm acesso. Processos de desejos de áreas inteiras são acelerados e, com isso, todo ritmo de crescimento da cidade, da valorização dos terrenos e especulação imobiliária continua intacto. Bairros param, cidades param, vidas acabam, mas nada interrompe o fluxo incessante de acumulação.

Enquanto isso, a única força capaz de parar o tempo em vistas da solidariedade, da necessidade de sobreviver ao caos e continuar de cabeça erguida é a organização e manifestação da indignação do povo, contra a violência, contra a ação criminosa que as deixa submersas, contra o fim das comunidades. No Jd. Pantanal há um exemplo de tentativa de organização contra o jugo do poder do capital e de seus representantes no poder político, que em nada se moveram para evitar que se repetisse o que ocorreu na mesma época no ano passado. Em meio às barbaridades, temos aqui a denúncia da situação vivida nas comunidades dessa região da zona leste de São Paulo, que vive as mazelas da chuva em proporção alarmante, mas que se assemelha, na história e na luta cotidiana, de tantas outras comunidades das periferias de São Paulo.


Solidariedade aos moradores do Jardim Pantanal

Diante de tantos desalojados, e de tantos que perderam tudo o que possuíam nos vários bairros do Jd. Pantanal, alimentos, roupas e outros itens de primeiro necessidade estão sendo recolhidos na portaria do Instituto Alana, em frente à sede do MULP (Movimento de Urbanização e Legalização do Jd. Pantanal), na Rua Erva do Sereno, 548.

Para realizar doações, entrar em contato com Thaís: 9755-2474; ou Vagner: 7379-8860 e 2584-6138.

 

Sarau na Nuno Guerner

Sarau no Parque Cocaia I

Se a chuva permitir, bora pro primeiro sarau do ano!!! Um ano de muita luta, labuta, poesia, grafite, música, tudo junto e misturado.

Conjuntura

A construção da cidade e o Extremo Sul

Está em curso o maior processo de despejos em massa já feito na história da cidade de São Paulo. Para justificá-lo, foram escolhidos dois discursos mentirosos, repetidos à exaustão: a defesa do meio ambiente e o investimento em infra-estrutura. Assim, por toda parte, dezenas de milhares de famílias estão sendo despejadas em meio à implantação de projetos megalomaníacos (ex. “Programa Mananciais”, Rodoanel, ampliação das Marginais) e políticas como “Operação Defesa das Águas”, “Operação Córrego Limpo”, tendo destaque aqui a construção de dezenas de parques lineares e praças. Com as obras e os projetos em curso, as áreas afetadas são valorizadas e passam a servir melhor à especulação imobiliária. Assim, além de uma imensa fonte de corrupção e de desvios de verbas, essas obras servem para encher os bolsos das empreiteiras, incorporadoras, imobiliárias e outras empresas que são, de longe, as principais financiadoras de campanhas eleitorais. Por outro lado, são gastos milhões e milhões em propagandas dessas obras, com objetivos eleitoreiros.

Os bilhões destinados aos projetos citados, tão bonitos no papel, nunca se revertem em benefício das pessoas afetadas, como demonstra o caso da “Operação Faria Lima”, em que centenas de milhões de reais originalmente destinados à construção de moradias populares para as milhares de famílias despejadas acabou sendo gasto na tal Ponte Estaiada. Ao invés de respeito e atendimento habitacional, as famílias afetadas são criminalizadas por ocupar uma área de maneira irregular, e por crimes ambientais.

A verdade que não se conta é a seguinte: foi com muita violência que uma minoria se apossou das terras e passou a oprimir a maioria da população, que, sem opção, teve que construir suas moradias longe do centro, em áreas sem infra-estrutura. Se a população pobre ocupou e ocupa áreas “irregulares”, beiras de rios, barrancos e áreas de mananciais foi porque não teve alternativa, e tirá-la de lá para outra área “irregular” não é solução.

No caso da nossa região, o primeiro momento de forte expansão se deu na década de 1970, mas esse ritmo é até hoje bastante acelerado. Nesse momento, a ocupação estava relacionada ao êxodo rural e à expulsão das populações pobres das regiões centrais da cidade. Por conta da legislação ambiental criada naquela época, o Estado se desobrigou de desenvolver aqui infra-estruturas e um processo regular de ocupação, o que fez com que a região permanecesse relativamente barata. Num conluio entre grandes proprietários, advogados, políticos e outros burocratas, criaram-se grandes loteamentos irregulares, o que significou um primeiro movimento de valorização, já que os grandes latifúndios – grilados e roubados – , mantidos inteiros, tinham pouco valor, ao passo que divididos em milhares de pequenas partes, passaram a ser uma incrível fonte de dinheiro.

Atualmente, essas áreas despontam como uma nova possibilidade de se fazer dinheiro; assim, se pretende expulsar violentamente uma parte da população mais pobre, regularizar a situação dos demais (o que significa inserir de fato a região no mercado imobiliário), e investir em infra-estrutura. Os que não serão despejados de um jeito, serão de outro, já que existe mais de uma forma de espoliar e despejar a população pobre: algumas envolvem processo jurídicos, oficiais de justiça e Polícia Militar; outras envolvem a cobrança de todo tipo de taxas e serviços, o encarecimento do custo de vida na região, os processos de especulação imobiliária, ou seja, a lei do mercado que promove expulsões veladas. Não é à toa que a regularização fundiária há tempos é política do Banco Mundial.

Por outro lado, ninguém é mais interessado na preservação das águas do que nós, que moramos próximos à represa, onde há poucas décadas era possível nadar e pescar. E somos nós que mais padecemos com a poluição, obrigados a conviver diretamente com ela, expostos à pragas e doenças. Se residimos em áreas de mananciais – dentro da qual estão também o Autódromo de Interlagos, grandes mansões, etc., que evidentemente não sofrem qualquer ameaça – é porque não temos alternativa.

Sabemos que é possível conciliar nossa própria existência com a preservação ambiental, por meio de uma ocupação ordenada do solo, e com a implementação de sistemas de coleta de lixo e de redes de esgoto adequadas. A verdade é que os grandes poluidores das águas da Represa Billings (o maior reservatório de água doce em área urbana do mundo) foram e continuam sendo as grandes empresas que, estimuladas pelo Estado e sem qualquer fiscalização, instalaram-se às margens da represa, lançando em suas águas seus dejetos tóxicos e seus metais pesados.

Diante de tudo isso, dizemos sem medo de errar: não é invasor nem bandido o povo que vive em condições difíceis, que acorda cedo e dorme tarde, que passa horas em ônibus e trens lotados, que trabalha o dia todo para construir e manter funcionando toda essa cidade, que não consegue médico nem remédio quando realmente precisa, que volta e meia é humilhado pela polícia, que batalha duramente para ter seu teto. Invasor e bandido é o engravatado num gabinete do governo ou num escritório de empresa que rouba, explora e que expulsa famílias inteiras de suas casas.

Apoio à Jornada de Lutas do MST

Apoio à Jornada de Lutas do MST

Nos primeiros dias desse ano o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra realizou ações para denunciar a paralisação da reforma agrária e pressionar o governo para arrecadação de áreas a serem destinadas ao assentamento de famílias que vivem em ocupações no estado de São Paulo.

Na madrugada do dia 5 de janeiro 250 pessoas ocuparam uma área para reivindicar que seja destinada ao Acampamento Alexandra Kollontai, que existe desde 22 de maio de 2008. A ocupação foi na Fazenda Martinópolis, que pertence à Usina Nova União, situada no município de Serrana (Região de Ribeirão Preto). A Usina tem multas por crimes ambientais, dívidas exorbitantes com o Estado e com os trabalhadores que não receberam seus salários em 2010. Ainda assim, O DIREITO À PROPRIEDADE É DEFENDIDO VIOLENTAMENTE PELO ESTADO.

O acampamento amanheceu hoje (dia 7 de janeiro), cercado pela Tropa de Choque. A Polícia Militar está negociando com ocupantes com o pedido de reintegração de posse junto ao pedido de prisão dos ” identificados como lideranças”.

Apoiamos a luta do povo, contra a propriedade privada e a exploração do trabalho.

A violência do Estado é inaceitável e não pode conter nossa indignação.

Local do Acampamento: Rodovia Abraão Assed, Usina Nova União à direita (sentido Cajuru), próximo ao Assentamento Sepé Tiarajú, municípios de Serrana e Serra Azul – SP.

Contatos: Guê (16) 8162 8079,  Ari (19) 8219 6715 e Kely (16) 9231-7866 ou (16) 9231-6280

Para mais informações clique aqui e aqui.

Recordando os despejos em nossa região

Recordando os despejos em nossa região

Passadas as eleições, infelizmente uma nova onda de despejos deverá começar, afetando dezenas de comunidades em nossa região, e no conjunto da cidade de São Paulo, para não irmos muito longe. Sob os falsos argumentos de proteção ambiental e das melhorias urbanas, muitas pessoas serão criminalizadas, prejudicadas e obrigadas a aceitar migalhas e promessas vazias, já que está mais do que evidente que não existe uma real política habitacional para atender dignamente as famílias removidas.

O único meio de se contrapor a essa violência é a união e a luta das próprias comunidades ameaçadas, e é nesse sentido que publicamos aqui esse vídeo que documenta uma pequena parte da luta dos moradores do Parque Cocaia I. Que esse tipo de experiência nos sirva de inspiração e ensinamentos para nos fortalecer para as batalhas que virão.