Arquivos da Tag: repressão

Nova onda de despejos

Eleições e Remoções

Eleições são sempre oportunidades para negociatas. As cartas já foram marcadas há tempos: a decisão não é do povo, “exercendo sua cidadania”, como dizem os hipócritas de plantão. A gente nessa história é só “laranja”, e quem decide mesmo a coisa são os financiadores, as empreiteiras, as imobiliárias, os grandes meios de comunicação, quem é cheio da nota, enfim, e usa o dinheiro para pagar as campanhas e molhar as mãos de quem precisa ser “agradado”. Mas ninguém é bobo de achar que isso é feito de graça; na verdade, é mais uma contrapartida do favorecimento em licitações e em contratos que transferem bilhões de reais arrecadados pelo governo diretamente para os cofres da grandes empresas. Tudo isso acertado de antemão, por debaixo do pano.

Então a gente que se prepare, pois antes das eleições são licitadas muitas obras, que no geral significam despejos truculentos a troco de migalhas, piora nos serviços públicos, e por aí vai. E com a aproximação da Copa do Mundo, o cenário fica ainda mais sinistro. Por exemplo, além dos despejos na região do Itaquerão, já foram anunciadas muitas remoções para a construção da chamada linha 17 Ouro do Metrô, que deveria começar a funcionar em 2013, mas que agora dizem que vai ser inaugurada em 2014. Em função das obras para a Copa, do Programa Mananciais, da construção de Parques Lineares, etc. e tal, milhares e milhares de pessoas serão despejadas, juntando-se a outras tantas milhares de famílias que perderam suas casas nos ultimos anos. Mas fica sempre a pergunta: onde estão as dezenas de milhares de moradias populares prometidas a essas famílias? Como deixar a nossa moradia em troca de um “auxílio-aluguel” que não é suficiente para alugar outra casa? E ainda mais sem perspectiva de receber outra moradia, já que quase nada está sendo construído? Por que essas casas não foram construídas antes? E como trocar o lar que batalhamos para ter por uma dívida, já que as habitações construídas não vão ser entregues de graça, mas vão exigir o pagamento de prestações por décadas? Por fim, como abandonar nossa história, nossas raízes, nosso convívio, de uma hora pra outra, sem puder dizer nada sobre o assunto?

Esse tipo de pergunta foi levantada por um camarada, morador do Jd. Aeroporto, que é uma das áreas ameaçadas pela obra da tal “Linha Ouro” do Metrô. Seu texto Copa do Mundo x População traz várias reflexões importantes, e também nos leva a pensar: será que o Estado e as empresas já venceram essa parada? Ou será que ainda conseguiremos reverter essa situação?

6 anos dos Crimes de Maio

Os Crimes de Maio e a organização popular

No mês de maio, há seis anos, em poucos dias as polícias do Estado de São Paulo assassinaram várias centenas de moradores da periferia, em geral jovens e negros – para elas o perfil do suspeito, do inimigo.

Em inúmeras quebradas foram instituídos toques de recolher, e o pânico se instaurou entre a população pobre, pois todos sabíamos que a polícia queria sangue, e ninguém estava a salvo. Pessoas envolvidas ou não com o crime organizado tiveram sua sentença de morte decretada, pois seus bairros e suas rotinas lhes condenaram a estar “na hora errada, no lugar errado”. Voltar para a casa depois de um dia inteiro de trabalho e/ou de estudo foi o crime cometido por muitos, que lhes custou a própria vida. E assim, tantas famílias foram destruídas, sem possibilidade de reconstrução.

Esse Massacre contra a população pobre não foi o primeiro, e nem inaugurou a pena de morte neste país – que só não existe na lei, mas sim na prática, que é o que importa. Ele é cotidiano, como mostra a multiplicação dos “autos-de-resistência seguida de morte”, o fato de o Brasil ser o país em que mais se cometem homicídios, o encarceramento em massa etc.

Os Crimes de Maio de 2006 cometidos pelo Estado, por meio de suas polícias e grupos de extermínio, tiveram uma amplitude e uma brutalidade descomunal, pois deveriam servir como exemplo. Mas talvez ninguém mais falasse sobre esse episódio terrível, não fosse a dedicação e a coragem de um conjunto de familiares de vítimas, que desde então luta para não deixá-lo cair no esquecimento, e para combater os massacres cotidianos.

A iniciativa das Mâes de Maio, assim como outros grupos que se organizam para combater a violência de Estado, como a Rede de Comunidades contra a Violência (RJ), apontam para uma situação em que os massacres deixem de ser considerados normais e legítimos. E demonstram que ao invés de nos fecharmos em nossas tragédias pessoais, caindo no isolamento e sucumbindo ao desespero, precisamos encontrar nelas a força para nos organizarmos, para nos unirmos a outros tantos na mesma situação, e para irmos à luta, de modo que nosso sofrimento não seja em vão, e para que nossas vidas adquiram valor e significado. Do contrário, os governantes, as elites, os juízes, os políticos, as polícias vão continuar nos reduzindo a nada, a nos assassinar, a nos explorar, e a nos descartar quando bem entenderem.

Despejo da Ocupação Eliana Silva

Novo massacre em Belo Horizonte 

Já escrevemos sobre as ameaças de despejo à Ocupação Dandara, e outras ocupações de Belo Horizonte (aqui, aqui e aqui), onde existe uma enorme quantidade de pessoas sem-teto, ou sofrendo com o aluguel. Nessa cidade o povo tem se organizado e lutado duramente contra essa situação, sempre enfrentando com coragem a truculência por parte dos governantes, dos juízes, das polícias e dos endinheirados.

Nesse sentido, um conjunto de famílias realizou há pouco tempo uma nova ocupação, a Ocupação Eliana Silva, que neste final de semana foi palco de um novo massacre contra aqueles que lutam. Apesar da dura resistência, cerca de 300 famílias foram despejadas sem nenhuma alternativa, com o emprego de enorme violência por parte da PM.

Trata-se do mesmo tipo de ataque que foi feito à ocupação do Pinheirinho, e a tantas outras, e o seu significado e importância são os mesmos, independente do tempo de ocupação e do número de pessoas que nela moravam: uma vitória do Estado e das empresas contra o povo organizado, que revela bem quais as forças em disputa, e desmente os discursos de conciliação de classes.

Diante disso, não há saída se não aprofundar, multiplicar e fortalecer o exemplo da Ocupação Eliana Silva!

Toda solidariedade às suas famílias, nesse momento tão difícil!

Recomendamos a leitura do texto sobre a Ocupação Eliana Silva e o despejo de seus moradores aqui, e alguns vídeos aqui.

Rede de familiares de presos e presas

Rede Não te Cales: Periferia contra o Encarceramento – 2º Informativo

Encarceramento em Massa

Uma tragédia mais que anunciada

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional, só nos primeiros dois meses de 2012 a população carcerária no Estado de São Paulo aumentou em mais de 5 mil e quinhentas pessoas. Foram em média 92 pessoas por dia a mais no sistema carcerário, ritmo 4 vezes maior do que a média do ano passado, que já era explosiva. Assim, para manter o mesmo nível de superlotação e de déficit de vagas, neste ano teria sido necessário construir mais de três novas unidades prisionais por mês!

Sob esses números assustadores, esconde-se uma realidade terrível, na qual os presos e presas são submetidos a condições cada vez mais degradantes. A violência desse quadro só pode gerar revolta  e mais violência: a resposta dos diretores dos presídios e dos agentes carcerários é o aumento da truculência, mas qualquer um pode ver que a situação é insustentável.

E parece que é justamento isso que os governantes e os juízes querem: entupir os presídios, humilhar as pessoas presas  e seus familiares, e gerar mais revolta, para justificar mais repressão, mais presídios, e vender uma imagem de “defensores da ordem”. Já tem gente lucrando com esse sistema prisional terrível, e logo vão vir as propostas de privatização, para favorecer ainda mais meia dúzia de endinheirados.

Para prejuízo da maioria da população, o oportunismo e a ganância das elites e dos governantes fazem com que eles fechem os olhos para o simples e inevitável fato de que “um dia a casa cai”. De tempos em tempos isso ocorre, mas até hoje os principais prejudicados fomos nós, os “de baixo”. Chegará o dia em que a casa mais uma vez cairá, só que sobre a cabeça deles, dos “de cima”.

Então, esse mundo, em que “dos dois lados do muro” todos estamos aprisionados, ficará para trás, e a gente vai se perguntar: “como um dia foi possível alguém ter vivido assim?”.

Depois do Despejo II

Motivos Escancarados

Quando falamos sobre os escombros que ainda testemunham a destruição da Vila Brejinho, perguntamos o motivo desse tipo de ação. A resposta é dada pela própria Prefeitura, porta-voz das grandes construtoras e imobiliáriasSegundo uma diretora da Secretaria de Habitação, Maria Cecília Sampaio, “Pra ser cidadão em São Paulo, tem que pagar”. E no mesmo sentido, ela sugere à população mais pobre que procure cidades menores “pra poder aguentar” (veja mais aqui).

Aquilo que a gente e outros movimentos têm denunciado há tempos está mais do que escancarado, e não dá para ficar surpreso, já que a ditadura do grande capital imobiliário parece estar fora de questão. Para dar uma idéia da situação, as empresas que financiaram a candidatura do Kassab receberam mais de R$ 2 bilhões em contratos, entre 2009 e início deste ano (veja mais aqui). E não foi só o Kassab que elas financiaram, não, mas os candidatos a prefeito e a vereador de tudo quanto é partido, sempre garantindo os retornos futuros, seja qual for o cenário.

É por isso que uma resposta a essa situação só pode vir de quem sofre com essa ditadura, a população pobre, que é a principal vítima do rolo compressor da especulação imobiliária.

Imagens das últimas atividades

Só para registrar…

Fica aí o registro de algumas das atividades em que participamos; espaços construídos na raça, com várias pessoas trincando do jeito que podem, sem cobrar dinheiro e nem pagar simpatia pra ninguém.

Afinal, de que outro jeito daria pra juntar um hard core sangue-no-olho com uma idéia sobre a repressão do Estado, o Massacre do Pinheirinho, e a resistência do povo? 

Só assim pra fazer uma cultura que seja um instrumento de luta e de organização das quebradas. Logo menos, tem mais!

É nóis!

Registro do último encontro 

Entre final de fevereiro e primeira metade do mês de março muitas coisas rolaram por aqui. Deixamos aí umas imagens do encontro de dois anos da rede extremo sul pra registrar este momento de reflexão sobre a conjuntura e nossas tentativas de militância, mas também de curtir juntos a Trupe Lona Preta com sua nova peça e com o Conselho de Criança – grupo de rap lá do Campo Limpo.  Ganhamos também camisetas lindas, que já começaram a colorir nossas ações.

E o mais importante é que ao nos juntarmos pra refletir estes dois anos, contamos com presença de companheiros e companheiras muito importantes para continuar e fortalecer a caminhada de nosso movimento.

Barulho Contra a Opressão do Estado

2 Anos da Rede Extremo Sul

Manifesto de 2 Anos de Existência da Rede Extremo Sul

A violência do Estado e dos proprietários contra o povo sempre existiu, mas cresceu bastante nos últimos tempos. Nas grandes cidades, essa violência aparece de várias formas: a destruição de comunidades inteiras pelos despejos, as ações higienistas e a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, a militarização da gestão pública, o aumento da presença da PM nas ruas e nas quebradas, o que significa maior número de homicídios e o encarceramento em massa, sobretudo da juventude pobre e negra das periferias.

Em São Paulo, o Massacre do Pinheirinho, em janeiro deste ano, é um caso muito emblemático de repressão e da demonstração de poder contra o povo organizado. Neste momento se escancarou que o interesse econômico pode ser colocado acima de qualquer coisa, e principalmente da vida de familías e de militantes.

Do ponto de vista do povo e da construção do poder popular é preciso, portanto, reconhecer que vivemos em tempos difíceis. Diante dessa situação, é muito fácil para um movimento popular ficar vendendo ilusões, preso ao imediatismo, ao jogo da mídia, às mesas de negociação com o Estado, e realizando mobizações que parecem radicais, mas que são pensadas por uma meia dúzia que se acha “iluminada”, enquanto a maioria das pessoas que participam delas nem sabem direito o que estão fazendo, e acabam virando massa de manobra, em busca de um “salvador da pátria”. Em vez de atuar pelo fim da opressão e pela emancipação, o movimento acaba fazendo o contrário. Não é à toa que tantos lutadores de ontem são os inimigos de hoje, ocupando seus cargos no Estado e nas empresas, e usando o conhecimento que eles adquiriram no interior das lutas contra o povo organizado.

As lutas diretas em reação às ofensivas do Estado e das empresas são fundamentais, mas a opressão capitalista atua o tempo todo, em todos os espaços, e pelos mais diversos meios; por isso, a construção do poder popular exige também formas de organização permanentes, cotidianas, levantando as mais diversas bandeiras, de maneira integrada, e tentando criar laços de solidariedade, de companheirismo e de ajuda mútua, opostas ao “cada um por si” que domina em todo canto. É no interior desses processos organizativos de longo prazo que as lutas irão adquirir um caráter de libertação, e que serão acumuladas as forças para garantirmos nossas conquistas.

Além da questão da moradia e de outras necessidades básicas da vida, relacionadas à saúde, ao transporte, à educação, etc., recentemente começamos a encarar de frente outros desafios que são muito presentes em nosso dia-a-dia: um deles tem a ver com o encarceramento em massa, e nesse sentido temos nos organizado numa rede de familiares de presos e presas, tentando nos fortalecer contra o sistema prisional, penal e a violência policial que tanto nos oprime. Além disso, queremos criar formas de auto-sustentação que contribuam com nossa autonomia, e confrontem, ainda que de maneira tão modesta, algumas formas de exploração da qual somos vítimas. Assim, estamos iniciando algumas pequenas experiências produtivas, por meio da autogestão, e somando nas lutas de cooperativas de reciclagem da Zona Sul, que têm sido alvo de um projeto governamental de tirar das mãos dos catadores o controle sobre o trabalho.

Os nossos espaços de organização são mínimos, localizados, cheios de problemas. Uma festa em que umas pessoas fazem uns bolos, outras descolam umas bebidas, outras enfeitam a rua, e se compartilha tudo de graça; um sarau no meio da rua, em que se partilha música, poesia, dança e se troca altas idéias; uma projeção de vídeo e uma discussão com a criançada; pequenas reuniões; pequenos protestos; é essa nossa escala de atuação hoje. Mas em todas as nossas ações, onde não entra nem dinheiro nem voto, tentamos afirmar a auto-organização – o fazer “nós, por nós mesmos” – e a nossa independência em relação ao Estado, aos politiqueiros e aos patrões.

E isso, inclusive quando eles se disfarçam atrás de uma pele de cordeiro, “amigos do meio ambiente”, “amigos da periferia”, ou mesmo “amigos da cultura”, agenciadores que buscam transformar tudo em mercadoria, inclusive a cultura popular de resistência, e transformar os produtores dessa cultura popular em pequenos “empreendedores”, debaixo de suas asas. Mas aqueles comprometidos com os processos de mudanças reais nas comunidades sabem que nada que não seja construído pelas nossas próprias mãos e cabeças serão conquistas verdadeiras para a periferia!

Considerando esse contexto em que vivemos – no qual as formas de organização e de lutas diretas estão muito desacreditadas e a repressão rola solta – são essas algumas de nossas tentativas de colocar em prática uma proposta política de resistência, de enfrentamento, e de auto-organização popular. Para tanto, é necessário fortalecer nossa prática nas comunidades e nos coletivos que integram a Rede, melhorar nosso planejamento, nossa divisão de responsabilidades, nossa capacidade de avaliação e de crítica sobre o que fazemos, assim como o espaço de iniciativa de cada um de nós. Este processo é lento, difícil, e se insere numa longa história de lutas, no interior da qual o esforço e o compromisso de cada um faz muita diferença.  

Nois é pouco, mais é zica, mas aos poucos deixaremos de ser tão poucos, e seremos ainda mais zicas, na construção do poder popular nas nossas quebradas!

Periferia luta! Ontem, hoje e sempre.

Rede Extremo Sul, fevereiro de 2012

A Luta continua no Pinheirinho

Sábado, dia 3/03, a partir das 15h, ato-show “Somos Todos Pinheirinho”, comemorando 8 anos de ocupação. Em São José dos Campos, no Campão do Campo dos Alemães. O documentário será projetado as 18:30.


Encontro: poder popular em tempos de repressão

Cracolândia, higienização social e especulação imobiliária

O que revela e o que esconde a repressão aos usários de crack – Parte II

Outra coisa absurda que a mídia e o “poder público” estão fazendo em sua “caçada aos usuários de crack” é ignorar toda a problemática que envolve a questão do consumo  e do tráfico de drogas; quando se fala sobre a facilidade de se conseguir a “pedra”, fica parecendo que o problema é a biqueira (que, diga-se de passagem, é uma das poucas alternativas de emprego a tantos jovens pobres, e talvez a única que não tenha uma remuneração miserável), como se a venda no varejo, numa “lojinha”, não fosse apenas a ponta de um enorme sistema internacional extremamente lucrativo, que envolve grandes bancos, grandes empresários, políticos, juízes, policiais, etc., etc., de tal forma que não existe interesse em desmontá-lo; basta procurar um bode expiatório e fazer discursos moralistas contra o consumo e o tráfico de drogas.

No caso dos usuários, o fundamental é considerar como esse sistema social miserável em que vivemos, que nos condena a sofrer diversas privações, violências, humilhações, e a não encontrar sentido e realização em nossa existência, leva tantos a recorrer às drogas. Junto com isso, precisamos perceber os dependentes químicos como iguais, membros da nossa classe, que em sua maioria encontrou muito sofrimento e portas fechadas ao longo da vida. Aliás, muito deles são pessoas que foram lançadas à rua depois dos despejos, que se multiplicam pela cidade de São Paulo; são pessoas que foram mentirosamente acusadas de invasores, de destruidores do meio ambiente, e de outras coisas do gênero, que tiveram suas casas derrubadas, e que não receberam qualquer alternativa habitacional (já que não existe no município política habitacional digna desse nome). Com esses despejos, as empreiteiras ganham rios de dinheiro, e a região toda se valoriza, para benefício do mercado imobiliário; não é à toa que as empreiterias e as imobiliárias estão entre os principais financiadores de campanhas eleitorais…

Agora, independentemente de como chegaram ao vício, os usuários, que podiam ser cada um de nós, precisam de tratamento, de solidariedade, e não de pancada e confinamento compulsório. As torturas às quais estão sendo submetidos os dependentes do crack podem levá-los, ao contrário, a se aprofundar no vício e a tomar medidas extremas. E parece que é justamente isso que procuram as ditas “autoridades”: que algum usuário cometa um crime bárbaro, e assim, legitime todas as atrocidades que os governantes têm promovido, e crie a imagem de que estes são grandes defensores da “segurança pública”.

No caso da invasão da Cracolândia pela polícia, assim como no caso da ocupação da USP pela PM, e em muitos outros, ganha repercussão algo que é evidente nas quebradas: que a questão social e política é cada vez mais tida como caso de polícia, e que a presença e o poder da polícia têm aumentado muito. Com particular força no Estado e na cidade de São Paulo, os PMs estão colonizando a burocracia estatal, e a sociedade se militariza; um dos efeitos mais importantes disso é a crescente criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, e a proliferação de políticas higienistas.

[Adendo de última hora - Da redação deste texto na semana passada, para hoje, ele ganhou mais uma comprovação, ao mesmo tempo em que se tornou mais impotente. O despejo da comunidade do Pinheirinho faz com que essas linhas se tornem ainda mais amenas diante dos massacres promovidos pelas elites, por meio do Estado. Não é possível qualificar a covardia e a violência que são empregadas cotidianamente contra vastas parcelas da classe trabalhadora, e sobretudo contra aquelas organizadas em luta. O Pinheirinho desponta assim como demonstração da verdadeira face da polícia, da "justiça", e do Estado, mas também como exemplo de resistência que, cedo ou tarde, por meio dos esforços de diversas organizações, irá se espalhar].

Apesar das declarações absurdas dos burocratas da Prefeitura, é consenso que desocupar a Cracolândia não vai resolver nada, e como era de se esperar, todo dia a mídia noticia a criação de novas “cracolândias” espalhadas pela cidade. Então, além da pirotecnia e do marketing, percebe-se que existe outro motivo para a ação da polícia, que é o de atender aos interesses da especulação imobiliária, pois existem grandes projetos urbanísticos para as áreas onde se concentram os usuários de crack, já que são áreas centrais com enormes potenciais de valorização. Mas, para isso, é preciso que elas estejam “livres” de moradores de rua e de usuários de droga. E tome prisões, espancamentos, atropelamentos, tiros de bala de borracha, gás lacrimogênio, racismo, e por aí vai.

Que belo início de ano… 

A luta continua no Pinheirinho

O dia seguinte no Pinheirinho

De um lado, um ricaço pilantra (redundância) – tão pilantra que está proibido de entrar em 14 países e chegou a ser preso aqui, na tal Operação Satiagraha -, querendo de volta um terreno enorme, de mais de 1 milhão e 300 metros quadrados, que durante décadas serviu apenas para a especulação imobiliária, acumulando uma dívida de mais de 15 milhões de reais só de IPTU.

Desse mesmo lado, uma corja de juízes e políticos (redundância), sempre prontos a defender a propriedade privada e os lucros, e sempre sedendos por sangue e por dar vazão ao seu ódio contra a população pobre, sobretudo contra a população pobre que luta contra as opressões que sofre.

Do outro lado, milhares de pessoas convencidas de que “se morar é privilégio, ocupar é um direito”, organizadas em movimento no interior de um bairro construído por elas mesmas, com muito esforço. Tendo necessidade de um lugar para morar em condições dignas, essas pessoas enfrentaram todo tipo de preconceito e de repressão, e converteram aquele enorme terreno abandonado num espaço cheio de vida e de esperança.

Ontem, ignorando os acordos, as negociações, os protestos de inúmeras organizações, e mesmo uma decisão judicial, os abutres do Estado reuníram 2 mil poiciais para destruir a Ocupação do Pinheirinho, que resistia há 8 anos. A cidade de São José dos Campos foi sitiada, as comunicações cortadas, celulares foram apreendidos, e a dificuldade em circular informações sobre o que ocorria foi agravada pela blindagem que a grande mídia promove, omitindo ou distorcendo os fatos, de modo a criminalizar as vítimas e apoiar as barbaridades cometidas em nome do Deus dinheiro.

Com extrema violência e covardia, os fascínoras da PM conseguiram despejar os moradores, pegos de surpresa. Várias pessoas foram presas, outras tantas foram feridas, e algumas inclusive assassinadas. Condenadas à morte, ao espancamento, à prisão e à tortura, sem julgamento, por não baixarem à cabeça diante das injustiças e da desigualdade.

As milhares de pessoas forçadas a abandonar suas casas, deixando todos os seus pertences, foram mandadas para abrigos improvisados, sem infra-estrutura, sem atendimento médico, sem leite para as crianças, em 

Sim, os próximos dias serão de luto para tod@s aquel@s que lutam. Mas luto não significa reclusão, e as lágrimas e o ódio contra as atrocidades que foram cometidas contra @s companheir@s do Pinheirinho serão combustível para as tantas lutas que serão travadas por todo o Brasil, como foi o travamento da Avenida Paulista ontem no final da tarde, e diversos atos previstos para hoje (veja aqui).

Pinheirinho Resiste! Somos tod@s Pinheirinho!

Veja aqui o link para um vídeo feito pelo PassaPalavra.

Parem o Massacre no Pinheirinho

A PM está matando no Pinheirinho

Fora o uso de cassetetes, bombas de gás, sprays de pimenta, a PM está usando armas de fogo contra os moradores do Pinheirinho, e as notícias que chegam é que já assassinaram pelo menos 7 pessoas. O número de feridos é muito maior, entre adultos, crianças e idosos.

O banho de sangue era enunciado, e na verdade foi buscado pela PM e seus mandantes. PAREM O MASSACRE!