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Do último Sarau de 2011, para o ano de 2012

Lutas, Lutas e Poesia 

No último sarau do Recanto de 2011, rolou Piva, rolou Trindade, rolou Tigone e Renan, rolou Dani e Elvio, violão e maracatu, e os bboys Xis e Nonato. Rolaram muitas coisas boas, e o ano que vem já está rolando nas ideias das pessoas que curtem o sarau e as lutas: rolou uma prosa bem produtiva antes do sarau, com vontade de ampliar as ações coletivas de cultura engajada no extremo sul.  

Como disse o companheiro Renan, neste ano que chega: 

Dos governantes e canditatos, podem esperar mais do mesmo,
Da internet: previsões devastadoras, 
Da polícia: ações devastadoras,
 
Agora do povo: Lutas, Lutas e poesia! Sempre!

Continuação da série sobre conjuntura

Classe e Periferia

A discussão é bastante difícil, mas é possível dizer que, historicamente, a esquerda teve como espaços primordiais de atuação os sindicatos e os partidos políticos. Segundo algumas análises clássicas, essas organizações podiam exercer um papel complementar: os sindicatos e movimentos sociais estariam incumbidos de travar a luta econômica, geralmente específica, e com certa dosagem de corporativismo. Já os partidos unificariam essas lutas e a politizariam – superando o âmbito da luta meramente econômica e setorial – de modo a concentrar as condições para a disputa do próprio Estado, e para desencadear os processos revolucionários. Desse ponto de vista mais tradicional, geralmente a periferia e a população que nela reside foi deixada em segundo plano, ou foi tida como uma força conservadora, sendo rotulada “lúmpen-proletariado” (algo como “proletariado-esfarrapado”, ou a “raspa do tacho” da classe trabalhadora).

Nesse momento talvez seja saudável e mesmo necessário rever tais posicionamentos e estratégias. Em primeiro lugar, é preciso pensar a classe, e isso não pode ser feito de maneira simplista e dogmática; a classe revolucionária não é algo dado, fixo, mas algo que se constitui, e essa constituição envolve o espaço que ela ocupa na produção, mas também dimensões simbólicas, culturais, e sua prática política real. Uma dimensão essencial da classe revolucionária é a consciência revolucionária, relacionada à compreensão de como funciona a acumulação capitalista, à compreensão dos mecanismos de exploração e dominação, à compreensão do caráter alienante dessa sociedade, e à necessidade de estratégias para combatê-la, com base na conjuntura do momento. Portanto a classe revolucionária não é, ela se forma – ou deixa de se formar – a cada instante, assumindo diferentes características de acordo com o contexto; o mesmo se pode dizer das organizações da classe.

A tendência do capital é sempre promover a exploração sem peias, e sob certas condições ele consegue eliminar os limites impostos pela legislação, aumentando a jornada de trabalho, acabando com direitos trabalhistas, com a estabilidade de emprego, etc. Tais mudanças têm importantes impactos na constituição da própria subjetividade dos trabalhadores, e evidentemente para a sua organização enquanto classe, mas nem por isso faz com que eles deixem de ser trabalhadores (na ativa de modo cada vez mais diverso ou constituindo o exército industrial de reserva), e nem faz desaparecer qualquer possibilidade de organização e de formação de consciência de classe.

Enquanto o espaço da produção mantém sua importância como espaço de organização da classe, a importância da dimensão territorial aumenta, e se faz notar o dinamismo político potencial que reside nas periferias das grandes cidades. Não é possível estabelecer aqui nenhuma idealização: nas periferias o espaço está segmentado por uma série de forças conservadoras e regressivas; nas periferias atuam e incidem todas as pressões que levam ao embrutecimento, ao isolamento, ao individualismo; nas periferias também são cultivadas as idéias burguesas de defesa da propriedade, do consumismo, do sonho por ascensão social; nas periferias a população super-explorada é estimulada o tempo todo – pela novela, pela propaganda, pelo programa de rádio, pelos políticos, pelas igrejas -, a acreditar em falsos messias, a acreditar que a felicidade é a capacidade de comprar o celular mais moderno, ou a se conformar, a se resignar. No entanto, nas periferias também existem elementos que, sob certas circunstâncias, podem dar origem à solidariedade, à ajuda mútua, à revolta, que são base para processos qualificados de organização e de luta.

A história de muitos dos moradores da periferia é uma história de luta e de resistência; freqüentemente as condições materiais exigem que as pessoas se ajudem, e as precariedades e violências a que estão submetidas as empurram para processos de organização popular. Além disso, o rebaixamento das condições de subsistência atinge tal grau que as pessoas, trabalhando de maneira esporádica, conseguem garantir a sobrevivência e ainda ter tempo para participar de reuniões, de lutas, de processos formativos, etc.

A construção organizativa de base territorial necessita o desenvolvimento de processos orgânicos no interior das comunidades, embasados na dinâmica e nas especificidades de cada lugar, e levando em consideração o cotidiano, as trajetórias pessoais e coletivas, o imaginário, os laços de identidade de seus moradores. É lidando com a rotina, as carências, os medos, os anseios das pessoas e as características do lugar que se pode fomentar lutas e outras rupturas que se fazem necessárias para quebrar com a inércia conformista que impera por todo o lado, e para converter os laços territoriais em identidade e consciência de classe. O caráter orgânico desse processo faz com que a dimensão da formação política seja estratégica, de modo a fazer com que os processos de luta e de organização sejam levados adiante pelas próprias referências das comunidades. Em nosso caso, a maioria das referências são mulheres adultas, mas a tarefa também é encampada por pessoas de todas as idades, independentemente do gênero, bem como grupos e coletivos locais.

Uma atuação dessa natureza não pode assumir caráter “corporativo”, e ainda que se concentre em algumas estratégias e táticas básicas de intervenção, deve possibilitar a criação de respostas (e mesmo distintas respostas) a diversos tipos de reivindicação econômica, que, por estarem coladas a processos formativos, devem ser sempre e cada vez mais politizadas.

A luta da Rede de Comunidades do Extremo Sul se faz na construção de uma organização popular autônoma e combativa, que fortaleça a luta da classe revolucionária nos territórios periféricos.

Conjuntura

A construção da cidade e o Extremo Sul

Está em curso o maior processo de despejos em massa já feito na história da cidade de São Paulo. Para justificá-lo, foram escolhidos dois discursos mentirosos, repetidos à exaustão: a defesa do meio ambiente e o investimento em infra-estrutura. Assim, por toda parte, dezenas de milhares de famílias estão sendo despejadas em meio à implantação de projetos megalomaníacos (ex. “Programa Mananciais”, Rodoanel, ampliação das Marginais) e políticas como “Operação Defesa das Águas”, “Operação Córrego Limpo”, tendo destaque aqui a construção de dezenas de parques lineares e praças. Com as obras e os projetos em curso, as áreas afetadas são valorizadas e passam a servir melhor à especulação imobiliária. Assim, além de uma imensa fonte de corrupção e de desvios de verbas, essas obras servem para encher os bolsos das empreiteiras, incorporadoras, imobiliárias e outras empresas que são, de longe, as principais financiadoras de campanhas eleitorais. Por outro lado, são gastos milhões e milhões em propagandas dessas obras, com objetivos eleitoreiros.

Os bilhões destinados aos projetos citados, tão bonitos no papel, nunca se revertem em benefício das pessoas afetadas, como demonstra o caso da “Operação Faria Lima”, em que centenas de milhões de reais originalmente destinados à construção de moradias populares para as milhares de famílias despejadas acabou sendo gasto na tal Ponte Estaiada. Ao invés de respeito e atendimento habitacional, as famílias afetadas são criminalizadas por ocupar uma área de maneira irregular, e por crimes ambientais.

A verdade que não se conta é a seguinte: foi com muita violência que uma minoria se apossou das terras e passou a oprimir a maioria da população, que, sem opção, teve que construir suas moradias longe do centro, em áreas sem infra-estrutura. Se a população pobre ocupou e ocupa áreas “irregulares”, beiras de rios, barrancos e áreas de mananciais foi porque não teve alternativa, e tirá-la de lá para outra área “irregular” não é solução.

No caso da nossa região, o primeiro momento de forte expansão se deu na década de 1970, mas esse ritmo é até hoje bastante acelerado. Nesse momento, a ocupação estava relacionada ao êxodo rural e à expulsão das populações pobres das regiões centrais da cidade. Por conta da legislação ambiental criada naquela época, o Estado se desobrigou de desenvolver aqui infra-estruturas e um processo regular de ocupação, o que fez com que a região permanecesse relativamente barata. Num conluio entre grandes proprietários, advogados, políticos e outros burocratas, criaram-se grandes loteamentos irregulares, o que significou um primeiro movimento de valorização, já que os grandes latifúndios – grilados e roubados – , mantidos inteiros, tinham pouco valor, ao passo que divididos em milhares de pequenas partes, passaram a ser uma incrível fonte de dinheiro.

Atualmente, essas áreas despontam como uma nova possibilidade de se fazer dinheiro; assim, se pretende expulsar violentamente uma parte da população mais pobre, regularizar a situação dos demais (o que significa inserir de fato a região no mercado imobiliário), e investir em infra-estrutura. Os que não serão despejados de um jeito, serão de outro, já que existe mais de uma forma de espoliar e despejar a população pobre: algumas envolvem processo jurídicos, oficiais de justiça e Polícia Militar; outras envolvem a cobrança de todo tipo de taxas e serviços, o encarecimento do custo de vida na região, os processos de especulação imobiliária, ou seja, a lei do mercado que promove expulsões veladas. Não é à toa que a regularização fundiária há tempos é política do Banco Mundial.

Por outro lado, ninguém é mais interessado na preservação das águas do que nós, que moramos próximos à represa, onde há poucas décadas era possível nadar e pescar. E somos nós que mais padecemos com a poluição, obrigados a conviver diretamente com ela, expostos à pragas e doenças. Se residimos em áreas de mananciais – dentro da qual estão também o Autódromo de Interlagos, grandes mansões, etc., que evidentemente não sofrem qualquer ameaça – é porque não temos alternativa.

Sabemos que é possível conciliar nossa própria existência com a preservação ambiental, por meio de uma ocupação ordenada do solo, e com a implementação de sistemas de coleta de lixo e de redes de esgoto adequadas. A verdade é que os grandes poluidores das águas da Represa Billings (o maior reservatório de água doce em área urbana do mundo) foram e continuam sendo as grandes empresas que, estimuladas pelo Estado e sem qualquer fiscalização, instalaram-se às margens da represa, lançando em suas águas seus dejetos tóxicos e seus metais pesados.

Diante de tudo isso, dizemos sem medo de errar: não é invasor nem bandido o povo que vive em condições difíceis, que acorda cedo e dorme tarde, que passa horas em ônibus e trens lotados, que trabalha o dia todo para construir e manter funcionando toda essa cidade, que não consegue médico nem remédio quando realmente precisa, que volta e meia é humilhado pela polícia, que batalha duramente para ter seu teto. Invasor e bandido é o engravatado num gabinete do governo ou num escritório de empresa que rouba, explora e que expulsa famílias inteiras de suas casas.

Apoio à Jornada de Lutas do MST

Apoio à Jornada de Lutas do MST

Nos primeiros dias desse ano o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra realizou ações para denunciar a paralisação da reforma agrária e pressionar o governo para arrecadação de áreas a serem destinadas ao assentamento de famílias que vivem em ocupações no estado de São Paulo.

Na madrugada do dia 5 de janeiro 250 pessoas ocuparam uma área para reivindicar que seja destinada ao Acampamento Alexandra Kollontai, que existe desde 22 de maio de 2008. A ocupação foi na Fazenda Martinópolis, que pertence à Usina Nova União, situada no município de Serrana (Região de Ribeirão Preto). A Usina tem multas por crimes ambientais, dívidas exorbitantes com o Estado e com os trabalhadores que não receberam seus salários em 2010. Ainda assim, O DIREITO À PROPRIEDADE É DEFENDIDO VIOLENTAMENTE PELO ESTADO.

O acampamento amanheceu hoje (dia 7 de janeiro), cercado pela Tropa de Choque. A Polícia Militar está negociando com ocupantes com o pedido de reintegração de posse junto ao pedido de prisão dos ” identificados como lideranças”.

Apoiamos a luta do povo, contra a propriedade privada e a exploração do trabalho.

A violência do Estado é inaceitável e não pode conter nossa indignação.

Local do Acampamento: Rodovia Abraão Assed, Usina Nova União à direita (sentido Cajuru), próximo ao Assentamento Sepé Tiarajú, municípios de Serrana e Serra Azul – SP.

Contatos: Guê (16) 8162 8079,  Ari (19) 8219 6715 e Kely (16) 9231-7866 ou (16) 9231-6280

Para mais informações clique aqui e aqui.

Conjuntura

A produção da cidade e de suas periferias

As cidades concentram hoje, em quase todos os países, e cada vez mais, a maior parte da população do planeta. As periferias urbanas, por sua vez, crescem num ritmo bem mais acentuado do que o restante da cidade, e mesmo segundo previsões conservadoras, como a apresentada pelo relatório ONU-Habitat de 2007, a tendência nas próximas décadas é que bilhões de pessoas morem em favelas, e que a pobreza atinja quase metade da população que vive no meio urbano.

No espaço da cidade estão desenhadas com ferro, fogo, sangue e suor a segregação social, a desigualdade, as espoliações. Na cidade temos as regiões em que se concentram os ricos, e onde imperam o luxo, a ostentação, o consumo desenfreado e destrutivo, os serviços caros – lugares que são literalmente vendidos como “ilhas de riqueza”. Esses espaços, que abrigam os grandes empresários, os grandes dirigentes industriais, os grandes banqueiros, os grandes especuladores (que por vezes são as mesmas pessoas), se confundem com os espaços de poder político, os verdadeiros espaços de decisão do Estado; são espaços vigiados, cheios de câmeras, seguranças privados, policiais, carros blindados, onde a pobreza – mais do que noutros lugares – é crime inafiançável, e o pobre só entra como um mal necessário – na forma de mão-de-obra – e ainda assim de um jeito bem controlado. Nessas regiões os poderes político e econômico têm realidade palpável nas construções, e delas irradiam certa estética, certa linguagem, certos códigos, certos padrões de conduta, certa moral, e uma série de mecanismos que constituem a ideologia burguesa – o conjunto de idéias que servem para legitimar o existente, ocultar suas mazelas, e bloquear sua crítica.

Vinculada a essa dimensão ideológica e simbólica está a dimensão econômica da cidade, pois concentrando um grande número de indústrias e de serviços, bem como o grosso do mercado consumidor, as cidades são elas mesmas um espaço econômico de produção e reprodução capitalista – e um escoadouro de capital sobreacumulado noutras partes -, seja pela indústria da construção civil, seja pela produção da renda da terra (o dinheiro que se pode conseguir mediante aluguel em função da propriedade da terra, e que varia em função da localização, do que existe construído na terra, do marketing, e de tudo o que envolve a especulação imobiliária), seja pela valorização financeira (especulação com as ações das grandes construtoras e incorporadoras, títulos de todas as espécies, créditos hipotecários, etc.), e por aí vai.

Esses processos de valorização e de afirmação do poder capitalista não podem estancar jamais; precisam sempre se repetir e se renovar. A construção e a reestruturação do espaço geográfico, sobretudo urbano, que muitas vezes incluem monumentais destruições e desvalorizações do ambiente construído, é absolutamente vital para a reprodução do capital, e os fluxos de capital e de capital fictício necessitam circular de maneira predatória pelo espaço urbano (basta pensar na recente crise econômica mundial).

Tomando como base a cidade de São Paulo, vemos que, se ainda ontem foram iniciadas a Operação Água Espraiada e a Operação Faria Lima, com suas pontes estaiadas e com a remoção brutal das favelas que lá existiam há décadas, hoje esse processo tem que se concluir (por exemplo, com a extinção da Favela do Jd. Edite), e outras frentes tem que ser criadas, como os “Programas Mananciais”, as “revitalizações” do centro e do centro expandido, os “Expressos Tiradentes” e os “Rodoaneis”, a contratação de grandes obras arquitetônicas, as maquiagens necessárias para se “receber” a Copa de 2014, e por aí vai. Todos esses processos, levados adiante pelo Estado e pelo grande capital, implicam em importantes modificações do espaço urbano, que afetarão muitos milhares de pessoas. Apesar dos enormes investimentos – em obras e propaganda -, dificilmente serão dadas respostas minimamente satisfatórias às populações que serão despejadas ou removidas, o que revela o fundo perverso do sistema capitalista e abre brechas para a organização política e para a luta direta, as quais, se bem direcionadas, poderão atingir diretamente o cerne da acumulação do capital.

Mesmo essa análise inicial já nos conduz a entender a dimensão territorial como estratégica para construção de processos organizativos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, os espaços onde as promessas do sistema – de igualdade, de oportunidade, de justiça, de satisfação, de alegria – são quebradas de um jeito ainda mais violento; onde estão concentradas grandes massas daqueles que têm pouco a perder além dos seus grilhões, mas que, como parte de toda uma longa história de luta, de coragem, de perseverança, têm um mundo a construir.

Debates sobre cultura e luta de classes

Cultura e Luta de Classes

Segue abaixo a programação de um encontro de grupos de teatro organizado pela Brava Companhia, do qual a Rede Extremo Sul foi convidada a participar. O encontro será repleto de debates e apresentações, tendo como tema geral a relação entre o teatro e a luta de classes.