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Arquivo da categoria: Conjuntura
Encontro: poder popular em tempos de repressão
Publicado em Conjuntura, Recanto Cocaia, Todas as comunidades
Com a tag conjuntura, periferia, poder popular, repressão
Conjuntura
*Continuação da série originalmente publicada no Passa Palavra.
Eixo Rio-São Paulo: Cidades-Negócio, Militarização e
Resistência Popular
Parte II: Duas facetas da Gestão Municipal
O loteamento da cidade
E desse modo as cidades se constroem como um paraíso para aqueles que negociam com a vida de todos, nos sugando e nos descartando quando lhes é conveniente. Em São Paulo, debaixo do véu criado pelos aparentemente tão respeitáveis e necessários Programa Mananciais, Operação Defesa das Águas, Operação Córrego Limpo, Expresso Tiradentes, Parques Lineares, etc., sob esse véu, a cidade foi loteada pelos grandes grupos econômicos. Nada de novo sob o sol, pois. O que chama a atenção é a força, a abrangência, e a falta de uma oposição efetiva a esse processo. Além disso, esses programas vêm com uma vantagem de início (para os grupos econômicos): quem seria contrário a proteger o meio-ambiente? O problema é que o discurso ambiental tem servido para esconder outros conflitos que são, antes de tudo, sociais. No Rio de Janeiro isso também fica claro: Se existem casas chiques e populares subindo os morros, por que somente as casas da população mais pobre são removidas “por segurança contra riscos ambientais”? Não existe dúvida de que os riscos são diferentes, afinal de contas, mesmo sendo muitas vezes construções ilegais, as grandes empresas conseguem financiamento para fazerem obras de segurança (contenção de deslizamentos e fundações, por exemplo). Mas será que o gasto público de remover várias famílias e mandá-las para longe das áreas centrais é menor do que a construção de muros para segurar os deslizamentos?
Não há exagero nenhum em dizer que as Prefeituras, o Estado, a União e seus diferentes órgãos são balcões de negócios, e que as grandes empresas mandam em tudo. Basta olhar de onde vem o atual prefeito de São Paulo e seus secretários, ou então as licitações por meio das quais bilhões foram entregues a meia dúzia de grandes construtoras, ou ainda como a quase totalidade dos partidos políticos estão ligados como que por um pacto de sangue aos grandes grupos econômicos, dos quais fazem parte ou de quem dependem para eleger seus candidatos e alimentar todo esse lodaçal que é o jogo eleitoral e as burocracias partidárias. Sérgio Cabral, atual governador do Rio de Janeiro, durante seu governo já beneficiou com mais de R$ 1,3 bilhão a empresa Delta Construções (de seu amigo pessoal Fernando Cavendish), em grande parte sem licitações. Eike Batista, empresário mais rico do país, doou R$ 750 mil para a última campanha de Cabral, além de prometer investir R$ 40 milhões no projeto das UPPs cariocas. E vejam que as fontes desses dados são conservadoras[1]. Além disso, os perversos impactos ambientais e sociais das atividades da siderúrgica alemã ThyssenKrupp CSA em Santa Cruz (bairro no extremo da Zona Oeste do Rio de Janeiro) e a ampliação do Porto de Sepetiba, bem como a construção do Porto do Açu pelo próprio empresário Eike Batista, são desconsiderados mesmo sob muitos protestos. Dá para perceber como, por trás da visibilidade que a Copa do Mundo e as Olimpíadas trazem ao Brasil, está também o grande interesse econômico de promover um tipo de “desenvolvimento” que só privilegia empresários e continua ferrando a imensa maioria da população pobre das cidades.
A militarização da gestão
Mas a venda da cidade e a sua produção como uma máquina de se fazer dinheiro tem sido acompanhadas por outro processo. Cada vez mais as questões sociais são tratadas como caso de polícia, não só o discurso policialesco e do medo se fortalecem, mas algumas importantes “inovações” institucionais são feitas. Uma delas, bastante reveladora, é a colonização das subprefeituras[2] por coronéis da Polícia Militar (dos 31 subprefeitos que existem na cidade de São Paulo, por exemplo, vinte e cinco são policiais militares). Outra inovação é o fortalecimento e a transformação dos Consegs (Conselhos de Segurança) em estruturas ativas de gestão descentralizada da cidade. Presididas também por quadros da Polícia Militar, hoje os Consegs organizam até mesmo reuniões “abertas” nas quais se discutem questões relativas à saúde, à educação, à infra-estrutura, etc. É um controle social que, em grande parte, também faz a chamada “UPP Social” no Rio de Janeiro: “policializam” não só a gestão de conflitos internos às comunidades, mas também o oferecimento de serviços ligados à cultura e à educação. As tentativas anteriores de disciplinar a população através da repressão crua fica assim mais sofisticada: além do medo imposto pelas armas e pela violência típica das polícias contra a população mais pobre, os espaços de moradia popular começam a ser controlados de perto por uma educação cotidiana policialesca. Moradores e moradoras, que tinham aprendido a conviver com a autoridade violenta do tráfico (o que é bem diferente de ser “conivente” com ele), agora voltam a ser educados para conviver com outra autoridade violenta: o Estado, através da polícia.
Como resultado prático imediato, vemos a intensificação da criminalização da pobreza e da organização popular, a dura repressão aos vendedores ambulantes, os despejos em massa, os ataques aos movimentos populares combativos e às suas tão suadas conquistas.
A cidade-negócio e a militarização da gestão são dois lados da mesma moeda, e sua intensificação nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro estão na ordem-do-dia para todos aqueles que não escolheram baixar a cabeça ou tapar os olhos. Contra essa onda repressiva, não conseguimos ver outro caminho senão o da organização autônoma do povo em luta.
Sobre os autores
A Rede de Comunidades do Extremo Sul é um movimento popular recém-criado na zona sul de São Paulo, que tem como proposta a organização autônoma do povo da periferia, sem depender de politiqueiros, nem de patrões, nem da migalha de quem quer que seja. Propomos a união das quebradas e a luta direta como meio de melhorarmos a nossa condição de vida, e combatermos as formas de opressão e de exploração que sofremos todos os dias. Junto com tant@s lutador@s, que ao longo da história se rebelaram, sabemos que nossas conquistas e nossa liberdade serão frutos de nossos próprios esforços! É por isso que caminhamos. Contatos: redeextremosul.wordpress.com, redeextremosul@gmail.com. O Pela Moradia é um coletivo que surgiu para prestar apoio esolidariedade à luta popular pelo direito à moradia. Até agora, temos
feito isso através do blog (http://pelamoradia.wordpress.com), da
colaboração direta com algumas das ocupações do movimento dos sem-teto do
Centro do Rio de Janeiro e da busca pela formação de uma rede de
comunicadores e comunicadoras populares que abordam e apóiam a luta por
moradia. Queremos agregar, documentar e produzir informações sobre o
ataque a esse direito fundamental sem nos sobrepor aos outros canais de
comunicação alternativa. Pensamos, afinal, que a comunicação pode ir muito
além da divulgação e ajudar diretamente a organização popular autogerida e
horizontal na qual acreditamos.
[1] Jornal “O Estado de São Paulo” (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,depois-de-acidente-cabral-faz-novo-contrato-com-a-delta,760921,0.htm) e jornal “O Globo” (http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/06/20/sergio-cabral-viajou-em-jato-de-eike-para-festa-de-empresario-com-quem-tem-contratos-de-1-bilhao-924734060.asp)
[2] Estrutura de gestão regionalizada da cidade de São Paulo.
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Com a tag despejos, Estado, moradia, poder popular, repressão
Conjuntura
Eixo Rio-São Paulo
Há algum tempo, fomos convidados pel@s companheir@s do Pela Moradia a fazer uma reflexão conjunta sobre a realidade de São Paulo e do Rio de Janeiro. O primeiro resultado desse esforço foi o texto “Eixo Rio-São Paulo: cidades-negócio, militarização e resistência popular”, cuja Parte I (“Cada quebrada com sua Copa do Mundo”) foi publicada na semana passada no Passa Palavra.
Segue também para leitura:
Eixo Rio-São Paulo: Cidades-Negócio, Militarização e Resistência Popular
Parte I: Cada Quebrada com sua Copa do Mundo
Muito se tem falado sobre os tais “mega-eventos” – a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 -; de um lado, o entusiasmo hipócrita dos Galvões Buenos da vida, apelando aos berros à estupidez nacionalista e tentando nos vender caro o “espetáculo” dos esportes. De outro lado, os jornalistas e comentaristas falando com gravidade, mas com o mesmo cinismo, sobre os atrasos nas obras e o receio de “fazermos feio” (como se esses atrasos não estivessem previstos, já que são sempre usados como forma de “flexibilizar” as licitações e facilitar ainda mais os superfaturamentos, os desvios de verba, a corrupção, e assim, permitir ao Estado que cumpra ainda melhor com uma de suas principais funções, que é a de promover grandes redistribuições de renda em favor dos ricos, ou seja, entregar às grandes empresas o dinheiro que o Estado toma de todos nós).
Em meio a toda essa falação, raramente são discutidas algumas das conseqüências mais diretas dos tais mega-eventos, e a lógica que eles seguem. Um aqui, ou outro acolá conseguem espaço para falar dos milhares de despejos que a construção dos estádios de futebol e o alargamento de vias vão produzir.
Mas que diabos tem a ver a Copa do Mundo com, por exemplo, a questão dos despejos no extremo sul de São Paulo? Afinal, aqui não vai ter jogo, e o gringo não vai passar por nossas redondezas quando se deslocar do aeroporto ao hotel, ou ao estádio de futebol.
De fato, em São Paulo, com importantíssimas exceções, como as favelas da Paz e da Fatec, em Itaquera, ameaçadas pela construção do Itaquerão (futuro estádio do Corinthians), as obras da Copa não vão afetar diretamente a maioria das comunidades mais pobres, que se concentram nas periferias. O problema é que cada periferia tem sua Copa do Mundo, uma cortina de fumaça que justifica despejos violentos em função de obras cujo propósito é entupir de dinheiro os bolsos de políticos e empresários, esconder a pobreza, e alimentar a especulação imobiliária – a cruel mágica de transformar a terra, que poderia nos abrigar ou nos alimentar, em dinheiro para uns poucos.
Ao mesmo tempo, cada cidade-sede tem suas próprias periferias, aqueles espaços e aquelas pessoas que não estão no centro dos interesses do Estado nem dos empresários. Algumas das periferias que já existiam muito antes de se tornarem um obstáculo para esses grandes “espetáculos” (de valorização) das cidades hoje estão sendo expulsas diretamente pelos despejos ou contidas sob as armas de “novos chefes fardados”. Isso acontece com algumas das “periferias do centro” no Rio de Janeiro, com as remoções e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Mas ao mesmo tempo em que pessoas são retiradas das comunidades desses morros do Centro e da Zona Sul, outras entram em seu lugar. Esses espaços, que antes eram periféricos, começam a ficar importantes. Mas importantes para quem? Será que antes já não eram importantes para os/as moradores/as? Sim, mas agora são importantes para outro grupo: os empresários (do turismo e do Estado).
Mas se isso está puxando algumas “periferias do centro” para perto do centro dos interesses, para onde vão as pessoas que antes estavam ali? Para isso que os grandes eventos não só produzem e reforçam “novos centros”, mas também criam e aumentam as periferias dos limites da cidade. Quando saem de suas antigas comunidades (seja por serem removidas, despejadas ou porque a vida começou a ficar muito cara por ali), as pessoas precisam buscar outros locais para morar. Assim, muitos acabam indo ou voltando para as áreas mais distantes dos centros de emprego e serviços públicos, aumentando a população que precisa se virar longe de qualquer benefício da cidade e piorando ainda mais a situação de quem já luta todo o dia para vencer a dificuldade de não ter sistema de esgoto, de água, energia, educação, saúde, transportes… É assim também que a Copa do Mundo (e as Olimpíadas, no Rio de Janeiro) chega mesmo onde não terá estádio, jogo, atleta ou gringos. Ela vai além da cortina de fumaça.
No extremo sul de São Paulo, nossa Copa do Mundo é principalmente o discurso ambiental. Com ele, os mesmos desgraçados que mandam construir o Rodoanel numa enorme área preservada em meio à represa dizem que a culpa da destruição ambiental é da família da dona Maria ou da dona Joana, que moram perto dessa represa porque não tiveram opção. Mas o que para os empresários é um discurso ambiental, uma espécie de propaganda mentirosa que faz com que outros queiram comprar os produtos ou serviços da sua empresa, para o seu João ou seu Francisco é o grande medo de ficar sem um teto. Nessa época de grandes espetáculos, não importa o que está por trás dos eventos. O que importa é a maquiagem que ele vai ganhar para ficar bonito aos olhos de quem vem gastar nele. No Rio de Janeiro também várias situações mudam de nome. Quando a dona Rosa volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho ela encontra a sigla “SMH” pintada na sua parede. É assim que a Secretaria Municipal de Habitação transforma os despejos em “programa habitacional”.
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Com a tag Criminalização, despejos, Estado, moradia, periferia, poder popular, repressão
Conjuntura
Por que ninguém fala sobre a conjuntura nacional? – Parte II
Mas é o caso de nos explicarmos melhor. Há poucas décadas, germinaram sob o solo devastado por uma brutal ditadura militar um sem-número de experiências organizativas bastante ricas, diversificadas e significativas. Dentre as mais conhecidas estão: as imensas mobilizações e greves da região do Grande ABC paulista, antecedentes imediatos da criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1983, uma central sindical que logo se estabeleceu em âmbito nacional; as greves dos bóias-frias e a onda de ocupações de terra rurais, que beberam da experiência das Ligas Camponesas e que logo dariam origem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em 1985; e tantas iniciativas urbanas de luta por saúde, educação, moradia, transporte, etc., que reuniram muitas pessoas e deram origem a muitos movimentos sociais. Como sabemos, esses três conjuntos de experiências se relacionam à multiplicação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e sofreram influência da Teologia da Libertação; além disso, eles estiveram bastante implicados na criação e consolidação dos Partidos dos Trabalhadores (PT), em 1980, o “partido do Lula”.
PT, CUT, MST… Se os mencionamos e os tomamos como representativos é devido à importância que tiveram e que ainda têm; não é simplesmente porque resumem todo o processo histórico que lhes deu origem, de modo algum. Por outro lado, sob essas bandeiras se abrigam tantos esforços, contradições, frustrações, conquistas, disputas, que estamos longe de algo monolítico e homogêneo. Da mesma forma, a despeito de serem expressões do mesmo contexto, e compartilharem uma série de características, seria absurdo simplesmente identificá-los, como se fossem a mesma coisa. Suas trajetórias demonstram isso.
Na década de 1990, sob a égide massacrante do que se convenciona chamar de neoliberalismo, essas três organizações prosperaram. A CUT e o PT, por motivos que logo mencionaremos e sob o impacto da derrota nas eleições presidenciais de 1989, fizeram-no com uma linha “pragmática” e cada vez menos radical, devotada à disputa por estruturas e à conquista de espaços na máquina estatal (e também nos fundos de pensão e coisas que tais), a coalizões, barganhas, conciliações, conchavos, lobbies, e por aí vai. Já o MST cresceu e se fortaleceu principalmente por meio do caminho da luta direta, fazendo diversas ocupações de terras, e, no interior de seus acampamentos e assentamentos, tendo de considerar as formas de sociabilidade de modo mais integral, e se colocar às voltas com diversas questões práticas relativas à produção, à educação, à formação política, entre outras.
De todo modo, o fortalecimento dessas e de outras organizações criaram um ambiente aparentemente promissor, e apesar das singularidades de cada uma delas, das disputas, das contradições, o fato é que uma parte bastante expressiva da “esquerda” brasileira apostou pesadamente no caminho capitaneado pelo PT, sobretudo diante das perspectivas reais de vitória de Lula nas eleições de 2002. Com isso, a força e a vitalidade de boa parte das iniciativas de base (ou desde “baixo”) minguaram, e mesmo organizações que se mantiveram combativas freqüentemente se burocratizaram e se engessaram.
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Temporada de caça aos que lutam
Militantes da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência sofrem ameaças de morte
Junto com a militarização e a criminalização da pobreza e da luta, estão se multiplicando as ameaças à vida, e mesmo os assassinados de militantes, por todo o país. Nas últimas semanas, companheiras da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência do Rio de Janeiro sofreram reiteradas ameaças (veja aqui), e na semana passada um militante do Movimento de Trabalhadores Sem-Teto sofreu uma tentativa de assassinato, no Distrito Federal (veja aqui).
Tentando encontrar nossas raízes debaixo das grossas camadas do esquecimento e da mentira, criadas pela história oficial, logo nos deparamos com a maldade e a truculência sem limites e sem tamanho das elites desse país, desde a época da invasão européia. Diante da menor tentativa de contestação, todos os aparatos repressivos eram mobilizados para promover o massacre – polícia, exército, milícias, jagunços, juízes, jornais, etc. E sempre esse massacre deveria ter um caráter exemplar, não poupando mulheres, crianças, idosos, e as mais perversas técnicas de tortura, humilhação, e terrorismo.
As elites desse país sempre foram sanguinárias, intolerantes e sempre ficaram apavoradas diante das formas de poder popular. E assim continuam até hoje.
O sistema capitalista fomenta e banaliza a violência, e nos reduz a algo insignificante, descartável, uma coisa que se mede por aquilo que pode comprar, e pela riqueza que ostenta. Pior ainda é a sentença para aqueles que não aceitam isso de cabeça baixa; esses devem ser discriminados e eliminados.
Se aceitar essa situação é impossível, diante dela precisamos redobrar nossos esforços no sentido de construirmos o poder popular, de modo a nos fortalecer diante dos nossos inimigos, e construirmos a convicção de que o sangue derramado não ficará impune, e que cada um desses companheiros e companheiras ameaçados são imprescindíveis.
Conjuntura
Por que ninguém fala sobre a conjuntura nacional? – Parte I
Pois é, este é apenas mais um texto sobre conjuntura. E talvez na cabeça do leitor esteja latejando a mesmo pergunta que também nos atormentou: “por que tem gente que perde tempo produzindo um troço deste?”. E o que é ainda mais decisivo nesse momento, “para que gastar meu tempo lendo isso?”. A gente bem que queria, mas essas respostas não temos como dar…
De nossa parte, se temos alguma coisa que nos diferencia em relação aos que costumam escrever esse tipo de texto, não é nada muito sedutor: não somos intelectuais (nem profissionais, nem orgânicos, nem de nenhuma outra espécie), não somos dirigentes (nem políticos, nem industriais, nem nada que o valha), não somos formadores de opinião (não temos parte com os grandes meios de comunicação, nem somos publicitários, não somos artistas profissionais, e estamos longe de pertencer ao clube dos famosos). Somos apenas militantes de um pequenino movimento popular, recém-criado, que mal começou sua caminhada, e que ainda assim acumula mais tropeços do que passos, nas estreitas e sinuosas veredas da luta de classe. Enfim, somos ninguém, um punhado de ninguéns que volta e meia nos metemos a escrever…
Quando pensamos na atual conjuntura brasileira, são muitos os temas que nos vêm à mente. Afora os “escândalos” da vez, que não escandalizam mais ninguém, como os casos Palloci, ou a corrupção nos ministérios do Transporte, das Cidades, do Turismo, etc., e as conseqüentes avaliações sobre os rumos do governo Dilma e coisas que tais, muito se discute sobre os Jogos Olímpicos de 2016, a Copa do Mundo de 2014 – os tais “mega-eventos” -, ou sobre o andamento da economia brasileira, supostamente um “exemplo mundial” em função das taxas de crescimento do PIB que sustentou nos últimos poucos anos.
Bem que podíamos gastar essas linhas lembrando o quão desigual é esse crescimento, e algumas de suas conseqüências sociais e ambientais perversas. Ou então, falar sobre os interesses por detrás dos mega-eventos, os grandes grupos econômicos presenteados pelo Estado com rios de dinheiro para a realização de obras superfaturadas e em grande parte inúteis, a corrupção em torno delas, os violentos despejos em massa da população pobre que não deve atrapalhar a paisagem nem o movimento dos tratores, as tentativas de calar as vozes dissonantes, e assim por diante. Ou ainda, poderíamos falar sobre o caráter estrutural da corrupção, parte necessária do funcionamento do Estado e do sistema político-partidário. No entanto, escreveremos, ao contrário, sobre algo que talvez componha o pano de fundo desse quadro.
Indo sem mais demora ao ponto, sofremos hoje as conseqüências de uma importante derrota histórica, uma derrota, é evidente, cantada em verso e prosa, e muita pirotecnia, como um êxito sem precedentes, uma prova inconteste do “progresso nacional”, a inauguração de uma nova era, segundo os vencedores de ocasião. “De ocasião”, dizemos, porque desta vez, além dos inimigos de sempre, os que não têm cessado de vencer, estão aqueles que volta e meia são chamados a repartir o butim; trata-se dos burocratas, dos politiqueiros, daqueles “companheiros” convocados para gerir o capitalismo (em geral quando este se encontra ameaçado de alguma forma), e para conter os ânimos revolucionários, o que por vezes inclui realizar o massacre das experiências mais radicais e autênticas que os de “baixo” conseguem produzir.
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Com a tag classe revolucionária, conjuntura, poder popular
Conjuntura: Sobre o bolsa-aluguel
“Aluguel-Social” ou “Tragédia Social”? – Parte II
Mas vamos fazer um exercício de imaginação. Vamos imaginar um burocrata, que trabalha na Secretaria de Habitação. É difícil, mas vamos imaginar que esse burocrata não é um lacaio das grandes construtoras e imobiliárias, e que é uma pessoa honesta e até bem-intencionada. Ou seja, vamos imaginar um autêntico reformista, uma figura extinta ou em vias de extinção hoje, dentro das estruturas do Estado.
Esse burocrata passou anos lá, trabalhando duro, como funcionário de carreira, e recentemente foi chamado a ocupar um cargo junto aos altos escalões do governo. Chocado com a tragédia do “bolsa-aluguel”, essa triste figura resolve mudar essa política (na cabeça dele, criar um “verdadeiro” aluguel-social).
Diferente do que existe hoje, ele propõe a criação de um “banco público de imóveis”, usando as milhares de casas e apartamentos que se encontram vazios na cidade de São Paulo, bem como outros imóveis de proprietários em busca de “segurança” no processo de aluguel. Esses imóveis do “banco público de imóveis” teriam que atender a certos critérios de qualidade, para abrigar as famílias de modo “digno”. Estas famílias iriam escolher sua casa entre os imóveis disponíveis, e o Estado se responsabilizaria pelo aluguel.
Segundo o plano do nosso burocrata, o Estado teria que controlar o preço dos aluguéis, evitando os processos de especulação, como os que acontecem hoje graças ao “bolsa-aluguel”.
Se os atuais membros da Secretaria de Habitação fossem “reformadores sociais” como eles propagandeiam, seria mais ou menos nesse sentido que apontaria uma política de aluguel-social. Ou seja, um processo rigidamente controlado pelo Estado (a forma política do Capital), que não ataca as raízes dos problemas, não arranha a estrutura da propriedade privada, mas dá uma interferida de leve nas tais “leis do mercado” para minimizar um pouco o sofrimento das vítimas das “intervenções urbanas”.
É evidente que, com uma proposta dessa natureza, nosso reformista não duraria duas semanas no cargo, já que os tempos não são de capitalismo meio “domesticado”, e sim de capitalismo selvagem, e que sua proposta entraria em choque com a estratégia geral do Estado de criminalizar e exterminar parcelas pobres da população e de favorecer a qualquer custo os interesses de empresários, dos especuladores, etc.
Nem “mercado”, nem “intervencionismo” do Estado
Apesar disso, vale a pena esse esforço de imaginação sobre o “caminho” reformista, já que isso ajuda a enriquecer os caminhos radicais, e evitar desvios. Esses caminhos, que pretendemos trilhar, são os da luta direta, da autonomia popular, da destruição das formas de tutela do Estado e das empresas, do confronto à ordem existente, da tomada dos prédios e imóveis abandonados, que passariam a servir às necessidades das pessoas e não do dinheiro, da decisão coletiva e igualitária sobre a melhor maneira de organizar, construir ou reformar as habitações e o conjunto do espaço urbano, do poder popular, enfim.
No entanto, sabemos que hoje o “caminho” conservador reina absoluto; que mesmo o “caminho” reformista é utópico; e que as propostas revolucionárias esbarram em todo tipo de obstáculo, num momento em que as bandeiras da abolição da propriedade privada parecem delírios de grupos sectários. Um dos principais obstáculos é a dependência em relação ao Estado e a falta de correlação de forças, que pressionam fortemente para que os caminhos radicais se degenerem em reformismo, com as conseqüências desastrosas que conhecemos.
É para mudar esse quadro que lutamos, persistimos, sem arredar pé, como tantos que vieram antes de nós, junto com muitos que confrontam essa conjuntura terrível em que nos encontramos. E certamente como tantos que virão.
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Com a tag despejos, moradia, poder popular
Conjuntura: Sobre o bolsa-aluguel
“Aluguel-Social” ou “Tragédia Social”? – Parte I
Há tempos temos denunciado a farsa do chamado “aluguel-social” ou “bolsa-aluguel”, um cheque-despejo disfarçado. Mas vale a pena pensar melhor sobre isso que virou a base da “política habitacional” paulistana.
Como funciona o tal “bolsa-aluguel”?
Numa situação de despejo, em meio a uma série de ameaças, mentiras, e agressões, feitas por assistentes sociais, funcionários da Defesa Civil, policiais e outros membros do Estado contra a população pobre, em troca das suas casas é apresentado aos moradores o “bolsa-aluguel”. “É pegar ou largar”, dizem aqueles abutres.
Desesperadas, muitas pessoas acabam deixando seus tetos por um destino incerto. Perdem vários vínculos sociais, se afastam de amigos, deixam de contar com o apoio de vizinhos, tem todo o tipo de dificuldade para conseguir a transferência de escola para seus filhos, que freqüentemente acabam perdendo o ano escolar, e por ai vai.
O valor do bolsa-aluguel é baixo, geralmente 300 ou 400 reais, entregues de 6 em 6 meses na forma de um cheque de 1800 ou 2400 reais. Além disso, a notícia de que o “benefício” vai ser distribuído acaba causando duas coisas: por um lado, um aumento dos roubos na comunidade; por outro, um processo local de especulação, de modo que os preços das casas de aluguel sobem às alturas, e ninguém mais acha um canto para alugar por esse valor. E quem tem filhos sofre ainda mais, porque é quase impossível encontrar algum proprietário que aceite uma família com mais de 2 crianças. Outra coisa que os proprietários exigem são os dois ou três meses de depósito, que o tal “aluguel-social” não prevê, e a família tem que se virar para conseguir.
Apesar de haver situações em que nem isso ocorre, atualmente o procedimento “normal” do Estado é fornecer um contrato de renovação periódica do “bolsa-aluguel”, e uma promessa de inclusão da família em um programa habitacional. Mas, geralmente, nesse contrato, não se fala nem onde, nem quando serão construídas as novas moradias.
Todo mundo sabe que só na cidade de São Paulo existem milhões de pessoas nas listas de espera dos programas habitacionais, que milhares de famílias estão sendo despejadas todos os anos, e que só um punhadinho de casas está sendo construída (punhadinho que é prometido para “Deus e todo mundo”, ano após ano, como é o caso dos prédios na Mata Virgem, Divisa de Diadema). E mesmo que a família tenha a sorte de ser uma das poucas escolhidas para ocupar essas casas, teria ganho com isso uma grande dívida, e passaria anos e anos e mais anos lutando para pagá-la, parcela por parcela, até ter novamente um teto que é seu.
Nesse contexto todo de ameaças, mentiras, insegurança, isolamento, desconfiança, humilhação, é evidente que temos um cenário ideal para desgraças. Muitos entram em depressão, enlouquecem, se afundam no álcool e noutras drogas, gastam o dinheiro do “auxílio” de um jeito inconseqüente, e famílias inteiras acabam numa situação muito pior, vivendo de favor ou nas ruas.
Longe de resolver o problema da habitação, esse problema é agravado, junto com vários outros. Eis a realidade por detrás do “aluguel-social”…
Continuação da série sobre conjuntura
Classe e Periferia
A discussão é bastante difícil, mas é possível dizer que, historicamente, a esquerda teve como espaços primordiais de atuação os sindicatos e os partidos políticos. Segundo algumas análises clássicas, essas organizações podiam exercer um papel complementar: os sindicatos e movimentos sociais estariam incumbidos de travar a luta econômica, geralmente específica, e com certa dosagem de corporativismo. Já os partidos unificariam essas lutas e a politizariam – superando o âmbito da luta meramente econômica e setorial – de modo a concentrar as condições para a disputa do próprio Estado, e para desencadear os processos revolucionários. Desse ponto de vista mais tradicional, geralmente a periferia e a população que nela reside foi deixada em segundo plano, ou foi tida como uma força conservadora, sendo rotulada “lúmpen-proletariado” (algo como “proletariado-esfarrapado”, ou a “raspa do tacho” da classe trabalhadora).
Nesse momento talvez seja saudável e mesmo necessário rever tais posicionamentos e estratégias. Em primeiro lugar, é preciso pensar a classe, e isso não pode ser feito de maneira simplista e dogmática; a classe revolucionária não é algo dado, fixo, mas algo que se constitui, e essa constituição envolve o espaço que ela ocupa na produção, mas também dimensões simbólicas, culturais, e sua prática política real. Uma dimensão essencial da classe revolucionária é a consciência revolucionária, relacionada à compreensão de como funciona a acumulação capitalista, à compreensão dos mecanismos de exploração e dominação, à compreensão do caráter alienante dessa sociedade, e à necessidade de estratégias para combatê-la, com base na conjuntura do momento. Portanto a classe revolucionária não é, ela se forma – ou deixa de se formar – a cada instante, assumindo diferentes características de acordo com o contexto; o mesmo se pode dizer das organizações da classe.
A tendência do capital é sempre promover a exploração sem peias, e sob certas condições ele consegue eliminar os limites impostos pela legislação, aumentando a jornada de trabalho, acabando com direitos trabalhistas, com a estabilidade de emprego, etc. Tais mudanças têm importantes impactos na constituição da própria subjetividade dos trabalhadores, e evidentemente para a sua organização enquanto classe, mas nem por isso faz com que eles deixem de ser trabalhadores (na ativa de modo cada vez mais diverso ou constituindo o exército industrial de reserva), e nem faz desaparecer qualquer possibilidade de organização e de formação de consciência de classe.
Enquanto o espaço da produção mantém sua importância como espaço de organização da classe, a importância da dimensão territorial aumenta, e se faz notar o dinamismo político potencial que reside nas periferias das grandes cidades. Não é possível estabelecer aqui nenhuma idealização: nas periferias o espaço está segmentado por uma série de forças conservadoras e regressivas; nas periferias atuam e incidem todas as pressões que levam ao embrutecimento, ao isolamento, ao individualismo; nas periferias também são cultivadas as idéias burguesas de defesa da propriedade, do consumismo, do sonho por ascensão social; nas periferias a população super-explorada é estimulada o tempo todo – pela novela, pela propaganda, pelo programa de rádio, pelos políticos, pelas igrejas -, a acreditar em falsos messias, a acreditar que a felicidade é a capacidade de comprar o celular mais moderno, ou a se conformar, a se resignar. No entanto, nas periferias também existem elementos que, sob certas circunstâncias, podem dar origem à solidariedade, à ajuda mútua, à revolta, que são base para processos qualificados de organização e de luta.
A história de muitos dos moradores da periferia é uma história de luta e de resistência; freqüentemente as condições materiais exigem que as pessoas se ajudem, e as precariedades e violências a que estão submetidas as empurram para processos de organização popular. Além disso, o rebaixamento das condições de subsistência atinge tal grau que as pessoas, trabalhando de maneira esporádica, conseguem garantir a sobrevivência e ainda ter tempo para participar de reuniões, de lutas, de processos formativos, etc.
A construção organizativa de base territorial necessita o desenvolvimento de processos orgânicos no interior das comunidades, embasados na dinâmica e nas especificidades de cada lugar, e levando em consideração o cotidiano, as trajetórias pessoais e coletivas, o imaginário, os laços de identidade de seus moradores. É lidando com a rotina, as carências, os medos, os anseios das pessoas e as características do lugar que se pode fomentar lutas e outras rupturas que se fazem necessárias para quebrar com a inércia conformista que impera por todo o lado, e para converter os laços territoriais em identidade e consciência de classe. O caráter orgânico desse processo faz com que a dimensão da formação política seja estratégica, de modo a fazer com que os processos de luta e de organização sejam levados adiante pelas próprias referências das comunidades. Em nosso caso, a maioria das referências são mulheres adultas, mas a tarefa também é encampada por pessoas de todas as idades, independentemente do gênero, bem como grupos e coletivos locais.
Uma atuação dessa natureza não pode assumir caráter “corporativo”, e ainda que se concentre em algumas estratégias e táticas básicas de intervenção, deve possibilitar a criação de respostas (e mesmo distintas respostas) a diversos tipos de reivindicação econômica, que, por estarem coladas a processos formativos, devem ser sempre e cada vez mais politizadas.
A luta da Rede de Comunidades do Extremo Sul se faz na construção de uma organização popular autônoma e combativa, que fortaleça a luta da classe revolucionária nos territórios periféricos.
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Com a tag classe revolucionária, conjuntura, luta de classes, periferia
Periferia em risco? Periferia em Luta!
Periferia em risco? Periferia em Luta!
Em outubro do ano passado, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entregou um relatório, encomendado pela Prefeitura de São Paulo, mapeando as chamadas áreas de risco da cidade. Segundo os critérios – por enquanto sigilosos – usados neste estudo, nossa cidade contaria com 407 áreas de risco, no que estaria incluído um total de 134 mil famílias e cerca de 29 mil imóveis classificados como de “alto risco”.
Curiosamente, no entanto, a pesquisa deixou de fora áreas sujeitas à inundação. E o que é mais estranho: não incluiu áreas de padrão socioeconômico elevado. O IPT levou em conta apenas regiões previamente apontadas pela Prefeitura como perigosas, entre elas, é claro, inúmeras comunidades da zona sul de São Paulo, sobretudo aquelas que já estão na mira do Programa Mananciais.
A nosso ver, com este duvidoso laudo técnico nas mãos, a Prefeitura pretende intensificar e acelerar os processos de despejos das comunidades pobres da periferia, e em particular na zona sul, que foi apontada como a que mais concentra áreas de risco na cidade. Só aqui na Capela do Socorro foram listadas 42 áreas.
Sabemos que, em nossa região, o uso deste laudo como argumento técnico para a realização de despejos já se iniciou. E o exemplo mais recente disso é o que aconteceu no Jd. Prainha: a visita dos agentes da Defesa Civil não veio acompanhada de nenhum suporte social, as famílias iam sendo jogadas à rua sem que houvesse qualquer proposta habitacional alternativa.
Este cenário de violência do Estado contra a população da periferia tende a se tornar mais grave se levarmos em consideração a denúncia de que a Secretaria Municipal de Habitação tem usado funcionários terceirizados armados para amedrontar moradores durante a derrubada das casas, como foi o caso da Favela do Sapo na última semana. Informação que foi confirmada pela própria Elizabete França, Superintendente de Habitação Social da Secretaria Municipal de Habitação (confira aqui).
Ao que parece, com a entrega destes autos de interdição em massa, os órgãos da Prefeitura procuram apenas “lavar as mãos”, ou seja, eximir-se de qualquer responsabilidade em relação ao venha acontecer com estas famílias e, assim, abrir caminho para a remoção de milhares de famílias pobres. Ou será que veremos mansões e estabelecimentos comerciais de luxo serem interditados e sofrerem truculentas ações de despejo?
A resposta a tudo isso? Nós a demos na prática nesta última semana, quando nos mobilizamos para frear a derrubada das casas e exigir que sejamos tratados com dignidade. Nunca é demais repetir:
Uma casa foi demais!
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Moradias interditadas
Auto de Interdição: mais uma arma contra o povo da periferia
Depois de fomentar a ocupação desordenada das periferias, e de negar investimentos em infra-estrutura (redes de esgoto, coleta de lixo, preservação de rios e córregos, etc.) e em habitação popular, o Estado tem intensificado o uso dos atos de interdição como forma de expulsar e aterrorizar milhares de famílias.
Ao invés de receberem uma proposta habitacional, os moradores recebem a visita da polícia e da Defesa Civil, e são forçados a assinar um documento que desobriga o Estado a garantir o direito à moradia, e faz com que ele lave as mãos diante das tragédias.
Ninguém se encontra em situação precária ou de risco porque quer, mas porque se encontra sem alternativa. A família despejada é obrigada a ir para a rua, ou a ocupar um lugar ainda mais perigoso. Isso é um absurdo! Assim como é um absurdo a Defesa Civil ser desvinculada das secretarias de habitação.
Trata-se de um crime do Estado contra a população pobre!!!
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Conjuntura
A construção da cidade e o Extremo Sul
Está em curso o maior processo de despejos em massa já feito na história da cidade de São Paulo. Para justificá-lo, foram escolhidos dois discursos mentirosos, repetidos à exaustão: a defesa do meio ambiente e o investimento em infra-estrutura. Assim, por toda parte, dezenas de milhares de famílias estão sendo despejadas em meio à implantação de projetos megalomaníacos (ex. “Programa Mananciais”, Rodoanel, ampliação das Marginais) e políticas como “Operação Defesa das Águas”, “Operação Córrego Limpo”, tendo destaque aqui a construção de dezenas de parques lineares e praças. Com as obras e os projetos em curso, as áreas afetadas são valorizadas e passam a servir melhor à especulação imobiliária. Assim, além de uma imensa fonte de corrupção e de desvios de verbas, essas obras servem para encher os bolsos das empreiteiras, incorporadoras, imobiliárias e outras empresas que são, de longe, as principais financiadoras de campanhas eleitorais. Por outro lado, são gastos milhões e milhões em propagandas dessas obras, com objetivos eleitoreiros.
Os bilhões destinados aos projetos citados, tão bonitos no papel, nunca se revertem em benefício das pessoas afetadas, como demonstra o caso da “Operação Faria Lima”, em que centenas de milhões de reais originalmente destinados à construção de moradias populares para as milhares de famílias despejadas acabou sendo gasto na tal Ponte Estaiada. Ao invés de respeito e atendimento habitacional, as famílias afetadas são criminalizadas por ocupar uma área de maneira irregular, e por crimes ambientais.
A verdade que não se conta é a seguinte: foi com muita violência que uma minoria se apossou das terras e passou a oprimir a maioria da população, que, sem opção, teve que construir suas moradias longe do centro, em áreas sem infra-estrutura. Se a população pobre ocupou e ocupa áreas “irregulares”, beiras de rios, barrancos e áreas de mananciais foi porque não teve alternativa, e tirá-la de lá para outra área “irregular” não é solução.
No caso da nossa região, o primeiro momento de forte expansão se deu na década de 1970, mas esse ritmo é até hoje bastante acelerado. Nesse momento, a ocupação estava relacionada ao êxodo rural e à expulsão das populações pobres das regiões centrais da cidade. Por conta da legislação ambiental criada naquela época, o Estado se desobrigou de desenvolver aqui infra-estruturas e um processo regular de ocupação, o que fez com que a região permanecesse relativamente barata. Num conluio entre grandes proprietários, advogados, políticos e outros burocratas, criaram-se grandes loteamentos irregulares, o que significou um primeiro movimento de valorização, já que os grandes latifúndios – grilados e roubados – , mantidos inteiros, tinham pouco valor, ao passo que divididos em milhares de pequenas partes, passaram a ser uma incrível fonte de dinheiro.
Atualmente, essas áreas despontam como uma nova possibilidade de se fazer dinheiro; assim, se pretende expulsar violentamente uma parte da população mais pobre, regularizar a situação dos demais (o que significa inserir de fato a região no mercado imobiliário), e investir em infra-estrutura. Os que não serão despejados de um jeito, serão de outro, já que existe mais de uma forma de espoliar e despejar a população pobre: algumas envolvem processo jurídicos, oficiais de justiça e Polícia Militar; outras envolvem a cobrança de todo tipo de taxas e serviços, o encarecimento do custo de vida na região, os processos de especulação imobiliária, ou seja, a lei do mercado que promove expulsões veladas. Não é à toa que a regularização fundiária há tempos é política do Banco Mundial.
Por outro lado, ninguém é mais interessado na preservação das águas do que nós, que moramos próximos à represa, onde há poucas décadas era possível nadar e pescar. E somos nós que mais padecemos com a poluição, obrigados a conviver diretamente com ela, expostos à pragas e doenças. Se residimos em áreas de mananciais – dentro da qual estão também o Autódromo de Interlagos, grandes mansões, etc., que evidentemente não sofrem qualquer ameaça – é porque não temos alternativa.
Sabemos que é possível conciliar nossa própria existência com a preservação ambiental, por meio de uma ocupação ordenada do solo, e com a implementação de sistemas de coleta de lixo e de redes de esgoto adequadas. A verdade é que os grandes poluidores das águas da Represa Billings (o maior reservatório de água doce em área urbana do mundo) foram e continuam sendo as grandes empresas que, estimuladas pelo Estado e sem qualquer fiscalização, instalaram-se às margens da represa, lançando em suas águas seus dejetos tóxicos e seus metais pesados.
Diante de tudo isso, dizemos sem medo de errar: não é invasor nem bandido o povo que vive em condições difíceis, que acorda cedo e dorme tarde, que passa horas em ônibus e trens lotados, que trabalha o dia todo para construir e manter funcionando toda essa cidade, que não consegue médico nem remédio quando realmente precisa, que volta e meia é humilhado pela polícia, que batalha duramente para ter seu teto. Invasor e bandido é o engravatado num gabinete do governo ou num escritório de empresa que rouba, explora e que expulsa famílias inteiras de suas casas.
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Com a tag conjuntura, Criminalização, despejos, luta de classes, periferia
Conjuntura
A produção da cidade e de suas periferias
As cidades concentram hoje, em quase todos os países, e cada vez mais, a maior parte da população do planeta. As periferias urbanas, por sua vez, crescem num ritmo bem mais acentuado do que o restante da cidade, e mesmo segundo previsões conservadoras, como a apresentada pelo relatório ONU-Habitat de 2007, a tendência nas próximas décadas é que bilhões de pessoas morem em favelas, e que a pobreza atinja quase metade da população que vive no meio urbano.
No espaço da cidade estão desenhadas com ferro, fogo, sangue e suor a segregação social, a desigualdade, as espoliações. Na cidade temos as regiões em que se concentram os ricos, e onde imperam o luxo, a ostentação, o consumo desenfreado e destrutivo, os serviços caros – lugares que são literalmente vendidos como “ilhas de riqueza”. Esses espaços, que abrigam os grandes empresários, os grandes dirigentes industriais, os grandes banqueiros, os grandes especuladores (que por vezes são as mesmas pessoas), se confundem com os espaços de poder político, os verdadeiros espaços de decisão do Estado; são espaços vigiados, cheios de câmeras, seguranças privados, policiais, carros blindados, onde a pobreza – mais do que noutros lugares – é crime inafiançável, e o pobre só entra como um mal necessário – na forma de mão-de-obra – e ainda assim de um jeito bem controlado. Nessas regiões os poderes político e econômico têm realidade palpável nas construções, e delas irradiam certa estética, certa linguagem, certos códigos, certos padrões de conduta, certa moral, e uma série de mecanismos que constituem a ideologia burguesa – o conjunto de idéias que servem para legitimar o existente, ocultar suas mazelas, e bloquear sua crítica.
Vinculada a essa dimensão ideológica e simbólica está a dimensão econômica da cidade, pois concentrando um grande número de indústrias e de serviços, bem como o grosso do mercado consumidor, as cidades são elas mesmas um espaço econômico de produção e reprodução capitalista – e um escoadouro de capital sobreacumulado noutras partes -, seja pela indústria da construção civil, seja pela produção da renda da terra (o dinheiro que se pode conseguir mediante aluguel em função da propriedade da terra, e que varia em função da localização, do que existe construído na terra, do marketing, e de tudo o que envolve a especulação imobiliária), seja pela valorização financeira (especulação com as ações das grandes construtoras e incorporadoras, títulos de todas as espécies, créditos hipotecários, etc.), e por aí vai.
Esses processos de valorização e de afirmação do poder capitalista não podem estancar jamais; precisam sempre se repetir e se renovar. A construção e a reestruturação do espaço geográfico, sobretudo urbano, que muitas vezes incluem monumentais destruições e desvalorizações do ambiente construído, é absolutamente vital para a reprodução do capital, e os fluxos de capital e de capital fictício necessitam circular de maneira predatória pelo espaço urbano (basta pensar na recente crise econômica mundial).
Tomando como base a cidade de São Paulo, vemos que, se ainda ontem foram iniciadas a Operação Água Espraiada e a Operação Faria Lima, com suas pontes estaiadas e com a remoção brutal das favelas que lá existiam há décadas, hoje esse processo tem que se concluir (por exemplo, com a extinção da Favela do Jd. Edite), e outras frentes tem que ser criadas, como os “Programas Mananciais”, as “revitalizações” do centro e do centro expandido, os “Expressos Tiradentes” e os “Rodoaneis”, a contratação de grandes obras arquitetônicas, as maquiagens necessárias para se “receber” a Copa de 2014, e por aí vai. Todos esses processos, levados adiante pelo Estado e pelo grande capital, implicam em importantes modificações do espaço urbano, que afetarão muitos milhares de pessoas. Apesar dos enormes investimentos – em obras e propaganda -, dificilmente serão dadas respostas minimamente satisfatórias às populações que serão despejadas ou removidas, o que revela o fundo perverso do sistema capitalista e abre brechas para a organização política e para a luta direta, as quais, se bem direcionadas, poderão atingir diretamente o cerne da acumulação do capital.
Mesmo essa análise inicial já nos conduz a entender a dimensão territorial como estratégica para construção de processos organizativos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, os espaços onde as promessas do sistema – de igualdade, de oportunidade, de justiça, de satisfação, de alegria – são quebradas de um jeito ainda mais violento; onde estão concentradas grandes massas daqueles que têm pouco a perder além dos seus grilhões, mas que, como parte de toda uma longa história de luta, de coragem, de perseverança, têm um mundo a construir.
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Com a tag capital, conjuntura, luta de classes, periferia
Choque de ordem
Onda de barbaridades no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, o auto-proclamado “poder público” têm conseguido superar em truculência e brutalidade o governo paulistano. Os despejos e a criminalização da pobreza têm se multiplicado, com violência cada vez maior: os últimos absurdos sobre os quais tivemos notícia ocorreram na Comunidade da Restinga.
Para acompanhar esses acontecimentos terríveis, acesse o site da Rede de Comunidades contra a Violência .
No interior de nossas pequenas trincheiras, continuaremos tentando fazer frente a essa escalada de violência contra o povo trabalhador, sabendo que a luta das comunidades pobres cariocas é a nossa própria luta.
Solidariedade aos moradores das favelas cariocas
Solidariedade aos moradores das favelas cariocas
“Guerra contra o crime”; “luta do bem contra o mal”; “mega-operação de pacificação das favelas cariocas”; “a sociedade unida contra a violência”… Quantas vezes essas e outras patacoadas foram repetidas sem parar pela grande mídia, por “especialistas” e por burocratas do Estado, nos últimos dias, entre as imagens de perseguições, prisões, tiroteios, ônibus queimando?
Em meio a toda essa hipocrisia, queríamos expressar nossa solidariedade aos moradores que vivem nas favelas cariocas, que se encontram ainda mais expostos à discriminação, a ameaças, ao espancamento, a roubos, a execuções sumárias, a estupros, e a toda uma série de mecanismos de opressão, mobilizados pelas ditas “forças de segurança” – o aparato repressivo do Estado, com ocupação das forças armadas em seus territórios (usando o conhecimento acumulado no Haiti, onde as tropas brasileiras há anos cometem todo tipo de atrocidade, e atuam intensamente no sentido de reprimir e evitar processos de organização popular).
São muitas as coisas que esse tipo de fachada midiática busca esconder, mas queríamos falar de apenas uma delas. O tráfico de drogas e o contrabando de armas estão entre as atividades mais importantes do comércio internacional, movimentando e gerando enormes fortunas. Por serem atividades “ilegais”, elas possuem características próprias, mas nem por isso são aberrações, nem desvios em relação ao normal. Ao contrário, são mercados capitalistas que envolvem grandes empresários, chefes de Estado, políticos, juízes, polícia, e no caso do mercado de varejo carioca, envolvem também facções criminosas e as milícias.
As lutas que se travam em torno desses mercados são lutas inter-capitalistas, em disputa pelo controle e pela organização deles, de modo a torná-los mais lucrativos e menos danosos para os grupos dominantes da vez. Além disso, esses mercados se alimentam das desigualdades e da pobreza, e se misturam com as estratégias de contenção da população pobre, o que se dá por meio da da repressão, do terrorismo de Estado e pela espetacularização midiática que criminaliza a pobreza.
Sim, a corda estoura no lado mais fraco; é por isso que geralmente quem sai perdendo nesse jogo – pagando, por vezes, com a própria vida – são as populações pobres que habitam os morros.
Ao que tudo indica, este processo, simbolizado pela instalação das UPP, deve inaugurar um novo modelo de contenção das insatisfações sociais no cotidiano dos morros cariocas, e talvez no de todas as periferias do Brasil. E será preciso tempo e persistência para poder interpretar e aprender a atuar neste outro cenário que se desenha. Por isso, esperamos que seja possível a organização popular desses moradores, que se aproveite as brechas que surgirem nessa reestruturação do “crime” no Rio de Janeiro, para que um dia o lado mais fraco não seja o nosso. Só assim colocaremos fim à verdadeira guerra; não à “guerra ao terror”, ou a “guerra ao crime organizado”, jargões mentirosos, mas a guerra de classes, em que nos encontramos mergulhados.
[Recomendamos a leitura e o acompanhamento da situação através do sítio dos companheiros e companheiras da Rede de Comunidades e Movimentos Contra Violência do Rio de Janeiro:
"Repúdio ao revide violento das forças de segurança pública no Rio de Janeiro, e às violações aos direitos humanos que vêm sendo cometidas" - http://www.redecontraviolencia.org/Documentos/764.html
Sítio da Rede Contra Violência (RJ) - http://www.redecontraviolencia.org]
TODA SOLIDARIEDADE AOS MORADORES DAS FAVELAS CARIOCAS!





