Conjuntura

Por que ninguém fala sobre a conjuntura nacional? – Parte II

            Mas é o caso de nos explicarmos melhor. Há poucas décadas, germinaram sob o solo devastado por uma brutal ditadura militar um sem-número de experiências organizativas bastante ricas, diversificadas e significativas. Dentre as mais conhecidas estão: as imensas mobilizações e greves da região do Grande ABC paulista, antecedentes imediatos da criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1983, uma central sindical que logo se estabeleceu em âmbito nacional; as greves dos bóias-frias e a onda de ocupações de terra rurais, que beberam da experiência das Ligas Camponesas e que logo dariam origem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em 1985; e tantas iniciativas urbanas de luta por saúde, educação, moradia, transporte, etc., que reuniram muitas pessoas e deram origem a muitos movimentos sociais. Como sabemos, esses três conjuntos de experiências se relacionam à multiplicação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e sofreram influência da Teologia da Libertação; além disso, eles estiveram bastante implicados na criação e consolidação dos Partidos dos Trabalhadores (PT), em 1980, o “partido do Lula”.

      PT, CUT, MST… Se os mencionamos e os tomamos como representativos é devido à importância que tiveram e que ainda têm; não é simplesmente porque resumem todo o processo histórico que lhes deu origem, de modo algum. Por outro lado, sob essas bandeiras se abrigam tantos esforços, contradições, frustrações, conquistas, disputas, que estamos longe de algo monolítico e homogêneo. Da mesma forma, a despeito de serem expressões do mesmo contexto, e compartilharem uma série de características, seria absurdo simplesmente identificá-los, como se fossem a mesma coisa. Suas trajetórias demonstram isso.

     Na década de 1990, sob a égide massacrante do que se convenciona chamar de neoliberalismo, essas três organizações prosperaram. A CUT e o PT, por motivos que logo mencionaremos e sob o impacto da derrota nas eleições presidenciais de 1989, fizeram-no com uma linha “pragmática” e cada vez menos radical, devotada à disputa por estruturas e à conquista de espaços na máquina estatal (e também nos fundos de pensão e coisas que tais), a coalizões, barganhas, conciliações, conchavos, lobbies, e por aí vai. Já o MST cresceu e se fortaleceu principalmente por meio do caminho da luta direta, fazendo diversas ocupações de terras, e, no interior de seus acampamentos e assentamentos, tendo de considerar as formas de sociabilidade de modo mais integral, e se colocar às voltas com diversas questões práticas relativas à produção, à educação, à formação política, entre outras.

        De todo modo, o fortalecimento dessas e de outras organizações criaram um ambiente aparentemente promissor, e apesar das singularidades de cada uma delas, das disputas, das contradições, o fato é que uma parte bastante expressiva da “esquerda” brasileira apostou pesadamente no caminho capitaneado pelo PT, sobretudo diante das perspectivas reais de vitória de Lula nas eleições de 2002. Com isso, a força e a vitalidade de boa parte das iniciativas de base (ou desde “baixo”) minguaram, e mesmo organizações que se mantiveram combativas freqüentemente se burocratizaram e se engessaram.

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