Arquivo do mês: fevereiro 2011

Manifesto de um ano da Rede de Comunidades do Extremo Sul

Manifesto:  Um Ano de luta da Rede de Comunidades do Extremo Sul

O povo de nossa região, assim como o povo de toda a periferia, sempre lutou por suas necessidades: cada escola, cada posto de saúde, cada linha de ônibus, cada rua asfaltada, até o acesso à água e à luz, foram resultados de várias batalhas no passado, feitas por muitas pessoas que sabiam onde o calo apertava, e acreditavam que a vida podia ser melhor. Essa consciência, essa união, e essa organização popular que trouxe uma série de conquistas, já fizeram tremer os “poderosos”, e poderão fazer novamente.

Foi com esse espírito que, em fevereiro passado, criamos a Rede de Comunidades do Extremo Sul, buscando fortalecer essa cultura de luta, de resistência e de solidariedade de classe, num momento em que reina o individualismo, a acomodação, e a arrogância de querer ser melhor do que o vizinho, e portanto de não se importar com suas dores e suas alegrias.

Na época de surgimento da Rede Extremo Sul, sofríamos não apenas com os despejos que se tornaram comuns em nossa região e em várias outras regiões de São Paulo, mas também com a calamidade das enchentes que atingiram algumas comunidades. Diante dessa situação, travamos pistas, marchamos, protestamos e até nos dispusemos a negociar com nossos inimigos, os donos do poder. Perdemos algumas batalhas e conseguimos resistir a outras ofensivas; vimos como é grande a força da estratégia usada pelo Estado e das construtoras para nos dividir, fragmentar nossas lutas, aliando a entrega de migalhas – que compram algumas lideranças e silenciam muitos dos que estão sendo removidos -, a uma repressão crescente, tratando os problemas sociais como crimes da população pobre contra o Estado, e mobilizando a polícia para não permitir qualquer manifestação do povo indignado com as injustiças que sofre.

Diante dos cheques-despejos disfarçados de bolsa-aluguel, e da falta de uma alternativa habitacional real, percebemos a mentira do discurso “humanitário” dos governantes, que dizem estar fazendo isso para nosso próprio bem. Outro discurso que se revelou mentiroso é o da defesa do meio ambiente: por que não se faz nada com as grandes empresas e as grandes mansões que também se encontram em áreas de mananciais? Por que não se cria infra-estrutura nas nossas comunidades, como redes de esgoto e sistemas eficientes de coleta de lixo? Por que não se dá alternativa aos que são removidos, obrigando-os assim a ocupar uma nova área à beira da represa ou de um córrego? Logo descobrimos a resposta destas e de outras perguntas: que se danem as nossas vidas ou o meio ambiente, quando se trata de encher de dinheiro os bolsos dos “poderosos”. E é isso que estão fazendo as grandes empresas – construtoras, incorporadoras, imobiliárias – e muitos políticos, que aliás têm suas campanhas financiadas por essas empresas.

Por mais duros que tenham sido esses ensinamentos, eles serviram para nos fortalecer, de tal forma que, ao completar um ano de existência, temos sim o que comemorar. Nesse período, passamos a nos reunir periodicamente para discutir os problemas de cada comunidade, tirar nossas pautas, decidir coletivamente nossas próximas batalhas. Outras comunidades se juntaram à Rede, sendo elas também vítimas da violência dos despejos e colocadas em situação de risco por obras que têm em vista o lucro e poder de alguns, mas não a melhoria das condições de vida da periferia. Lutamos pela moradia, mas também lutamos com as mães e reconquistamos juntos com essas mulheres guerreiras o direito à creche, que foi violado pela privatização do sistema de educação infantil; estamos juntos com estudantes, professores e comunidades que lutam pelo fim da opressão e autoritarismo no interior das escolas e pela qualidade da educação; e também com lideranças que lutam pela melhoria do transporte e da saúde de nossa região. Junto aos grupos de cultura, nos fortalecemos ocupando espaços e ruas, becos e vielas de nossas comunidades, criando autonomia para nossas manifestações que aliam uma arte e uma comunicação produzidas por nós mesmos com a luta cotidiana. E tivemos a satisfação de travar contato com outras lutas, como a iniciativa combativa e transformadora de cooperativas de catadores de papel, com quem temos todo o interesse em caminhar juntos.

Comemoramos também porque aprendemos com as derrotas e sabemos que nossos desafios são imensos, e que estão na ordem do dia de toda a periferia. Os próximos tempos serão sombrios, pois com o lucrativo projeto de transformar a imagem da cidade para os mega-eventos, como a Copa do mundo e as Olimpíadas, os ataques contra as populações pobres de São Paulo irão aumentar. No entanto, a cada dia tomamos mais consciência de nossa classe, reanimando a solidariedade entre nós, e percebemos que “nós” somos milhões. Estamos no extremo sul da cidade, mas também nas imensas periferias mundo afora.

Sabemos que as lutas que travamos são muito pequenas, insuficientes, localizadas. Mas temos ousadia de lutar, e de seguir um caminho honesto e autônomo, sem ficar debaixo da asa de políticos, de ONGs, de empresas, e sem nos subordinarmos ao Estado. Seguiremos dedicados à nossa organização de luta da periferia, por uma sociedade sem classes.

As tarefas do nosso tempo nos desafiam a estarmos sempre nos renovando, mudando de estratégias, propondo novas formas de nos organizarmos, diversificando nossas bandeiras. Hoje acreditamos ser importante articular e unificar algumas experiências organizativas que estão sendo desenvolvidas em nossa região, mas também em outras. Se buscamos combater com nossa prática a fragmentação das lutas, a divisão entre líderes e liderados, entre os que pensam e os que executam, entre os que mandam e os que obedecem; se somos contra a profissionalização da prática política, e a aplicação de modelos e fórmulas prontas, que não respeitam as realidades de cada lugar, pensamos também que não podemos cair no isolamento. Nos próximos meses, junto com outros companheiros e companheiras de caminhada, nos dedicaremos à criação de uma ferramenta organizativa que garanta ao mesmo tempo a autonomia das iniciativas em andamento, mas que as unifique em torno de bandeiras e estratégias comuns.


 

 

A periferia está em luta!

Rede de Comunidades do Extremo Sul, fevereiro de 2011.

 

Mais uma luta exemplar

No ano de 2009, um conjunto de estudantes da Escola Estadual José Vieira de Morais se organizaram de maneira autônoma e lutaram contra uma diretora autoritária. Mais do que uma mera substituição de burocratas, esses alunos, juntos com alguns professores, funcionários, pais e mães, empunharam a bandeira de uma educação libertária, buscando se contrapor a um sistema de ensino conservador e opressor.

O vídeo, reunindo materiais variados que se encontravam dispersos, documenta uma pequena parte dessa luta.

Jagunços da Prefeitura

“Normal”, porém inaceitável

Prefeitura de SP admite usar ‘jagunço’ para remover favela do Sapo”. “Evandro foi contratado para derrubar as casas, para tirar as pessoas da favela” (Elizabete França).

Sabemos que esse tipo de prática não é nenhuma novidade; frequentemente lidamos com essas e outras barbaridades em nossa luta cotidiana. Mas que isso seja afirmado pela própria Superintendente de Habitação Popular e Secretária Adjunta de Habitação de São Paulo revela o grau de naturalidade que adquiriram as práticas repressivas estatais (oficiais e extra-oficiais).  Diante da ausência completa de políticas habitacionais reais, e considerando o desprezo e mesmo o ódio que a elite paulistana e seus representantes nutrem contra a população pobre da cidade, não surpreende o emprego sistemático de jagunços nos processos de despejo em massa que se multiplicam. Se as ditas “instituições democráticas” não estivessem à serviço do lucro e da manutenção dessa ordem desigual e violenta, a afirmação feita por Elizabeth França resultaria na demissão imediata dela, do Secretário de Habitação e de outros membros da secretaria, e na abertura de processo criminal contra eles. No entanto, dificilmente algo será feito nesse sentido. Cabe à luta popular buscar que a justiça seja feita.

Periferia em risco? Periferia em Luta!

Periferia em risco? Periferia em Luta!

Em outubro do ano passado, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entregou um relatório, encomendado pela Prefeitura de São Paulo, mapeando as chamadas áreas de risco da cidade. Segundo os critérios – por enquanto sigilosos – usados neste estudo, nossa cidade contaria com 407 áreas de risco, no que estaria incluído um total de 134 mil famílias e cerca de 29 mil imóveis classificados como de “alto risco”.

Curiosamente, no entanto, a pesquisa deixou de fora áreas sujeitas à inundação. E o que é mais estranho: não incluiu áreas de padrão socioeconômico elevado. O IPT levou em conta apenas regiões previamente apontadas pela Prefeitura como perigosas, entre elas, é claro, inúmeras comunidades da zona sul de São Paulo, sobretudo aquelas que já estão na mira do Programa Mananciais.

A nosso ver, com este duvidoso laudo técnico nas mãos, a Prefeitura pretende intensificar e acelerar os processos de despejos das comunidades pobres da periferia, e em particular na zona sul, que foi apontada como a que mais concentra áreas de risco na cidade. Só aqui na Capela do Socorro foram listadas 42 áreas.

Sabemos que, em nossa região, o uso deste laudo como argumento técnico para a realização de despejos já se iniciou. E o exemplo mais recente disso é o que aconteceu no Jd. Prainha: a visita dos agentes da Defesa Civil não veio acompanhada de nenhum suporte social, as famílias iam sendo jogadas à rua sem que houvesse qualquer proposta habitacional alternativa.

Este cenário de violência do Estado contra a população da periferia tende a se tornar mais grave se levarmos em consideração a denúncia de que a Secretaria Municipal de Habitação tem usado funcionários terceirizados armados para amedrontar moradores durante a derrubada das casas, como foi o caso da Favela do Sapo na última semana. Informação que foi confirmada pela própria Elizabete França, Superintendente de Habitação Social da Secretaria Municipal de Habitação (confira aqui).

Ao que parece, com a entrega destes autos de interdição em massa, os órgãos da Prefeitura procuram apenas “lavar as mãos”, ou seja, eximir-se de qualquer responsabilidade em relação ao venha acontecer com estas famílias e, assim, abrir caminho para a remoção de milhares de famílias pobres. Ou será que veremos mansões e estabelecimentos comerciais de luxo serem interditados e sofrerem truculentas ações de despejo?

A resposta a tudo isso? Nós a demos na prática nesta última semana, quando nos mobilizamos para frear a derrubada das casas e exigir que sejamos tratados com dignidade. Nunca é demais repetir:

Uma casa foi demais!

Vídeos da luta da Jd. Prainha

Vídeos da luta do Jardim Prainha

Postamos aqui dois vídeos, um deles mostra a luta que fizemos na última sexta-feira, na Prefeitura de São Paulo, e o outro conta um pouco da história dessa mobilização, desde a interdição de algumas casas até agora.

Devemos agora permanecer juntos, atentos, e pressionando o “poder público” para que nossas reivindicações sejam realmente atendidas.

Jardim Prainha Luta

Uma casa foi demais

Tomando o Centro

Tomando o Centro

Hoje, a Periferia tomou o Centro. Fomos, cerca de duzentos companheiros e companheiras, exigir o que é nosso. Chega de despejos truculentos! Chega de esconder os projetos das famílias! Chega de tratar a população da periferia como se fôssemos lixo!


Nosso recado foi claro: nenhuma casa será derrubada; queremos uma alternativa habitacional para os moradores que tiveram suas casas interditadas; e exigimos o projeto de “urbanização” do Jd. Prainha. E não para daqui a um ano, mas AGORA!


 

Entregamos nossa reivindicação, e demos um prazo para uma resposta. Caso nossa exigência não seja atendida, vamos de novo para a luta, com ainda mais força, e reunindo outras comunidades que se encontram na mesma
situação.

Um salve aos camaradas do Jd. Pantanal, do Campo Limpo, e das demais comunidades do Extremo Sul, além dos compas da Rádio Várzea, que representaram no dia de hoje.


Prainha Luta! Periferia Luta!

Em breve: Mais Lutas


Moradias interditadas

Auto de Interdição: mais uma arma contra o povo da periferia

Depois de fomentar a ocupação desordenada das periferias, e de negar investimentos em infra-estrutura (redes de esgoto, coleta de lixo, preservação de rios e córregos, etc.) e em habitação popular, o Estado tem intensificado o uso dos atos de interdição como forma de expulsar e aterrorizar milhares de famílias.

Ao invés de receberem uma proposta habitacional, os moradores recebem a visita da polícia e da Defesa Civil, e são forçados a assinar um documento que desobriga o Estado a garantir o direito à moradia, e faz com que ele lave as mãos diante das tragédias.

Ninguém se encontra em situação precária ou de risco porque quer, mas porque se encontra sem alternativa. A família despejada é obrigada a ir para a rua, ou a ocupar um lugar ainda mais perigoso. Isso é um absurdo! Assim como é um absurdo a Defesa Civil ser desvinculada das secretarias de habitação.

Trata-se de um crime do Estado contra a população pobre!!!

Desfecho na Vila Rubi

Saudações às Guerreiras da Vila Rubi.

Nesta semana, as duas últimas famílias que estavam resistindo na Vila Rubi conseguiram da Prefeitura uma indenização que permite a elas comprarem suas novas casas. A batalha foi imensa, as ameaças, as pressões e as intimidações foram inúmeras ao longo desses meses de luta. De início, a Prefeitura e a Construtora Santa Bárbara fecharam as portas e os canais de negociação, dizendo que o máximo que seria dado era o tal “bolsa-aluguel”,  mas a perseverança dessas mulheres acabou prevalecendo.

Foram muito poucos os moradores da Vila Rubi que enfrentaram as estratégias de terror do Estado e que se juntaram à luta, mas, mesmo assim, uma importante vitória foi conquistada. Parabéns às guerreiras da Vila Rubi por esse exemplo de luta e de resistência!!!

Para lembrar desse processo, assistam ao vídeo Vila Rubi Luta, publicado aqui.


Jd. Prainha Luta

Moradores do Jd. Prainha seguirão mobilizados

Depois da mobilização no Jd. Prainha na quinta-feira passada, a Subprefeitura nos chamou para negociar. Dois dias de luta popular arrancou deles uma proposta habitacional aos oito moradores que tiveram suas casas interditadas desde as chuvas do ano passado, e a promessa de não derrubar outras dezenas de casas. Esse resultado é conquista da organização popular, mas é pouco para o Jd. Prainha e para todas as comunidades que estão na mira dos despejos, e que padecem de tantas dificuldades, como a falta de asfalto, saneamento, e a péssima qualidade dos serviços públicos. Queremos saber quais são os planos da Prefeitura, quantas remoções estão prevendo e qual o projeto de moradia que nos apresentarão. Estamos unidos e não aceitaremos propostas que dividam o povo. Seguiremos na luta!!!

Cerca de 350 moradores reunidos em assembléia hoje pela manhã.

 

 

Grafite no Prainha

Grafite no Prainha

Um salve aos companheiros que produzem sua arte junto e misturado com a luta popular. Em meio às ruínas brota a cultura que fortalece a luta do povo da periferia.

Grafite do Those no Jd. Prainha

Foto da remoção

Área com risco de remoção

Em meio à mobilização dos moradores, um funcionário da Subprefeitura entregou uma foto da comunidade do Jd.Prainha, com a demarcação de áreas onde, segundo ele, as casas seriam derrubadas por estarem em área de risco. Foi a primeira vez que tivemos acesso a um documento que informa as intenções da Prefeitura. Pena que iremos frustrar esses planos…

Não aceitaremos remoções sem que seja dada uma alternativa às famílias!

Área em vermelho - Primeira etapa da remoção. Área em laranja - Segunda etapa da remoção.

Clique na imagem para ampliar o mapa

Comunidade do Jd. Prainha barra despejo

250 moradores mobilizados barram remoção no Jd. Prainha

Como foi antecipado em nosso comunicado anterior, hoje, dia 03 de fevereiro, nós da comunidade do Jd. Prainha nos mantivemos mobilizados e conseguimos evitar novos despejos.

Apesar do assédio da prefeitura e da polícia, reunimos mais de 250 moradores e bloqueamos a Estrada da Ligação, a principal via de acesso à comunidade, fazendo com que os agentes da remoção recuassem temporariamente.

É importante ressaltar que apesar de toda a mobilização, a Prefeitura ainda não fez nenhuma proposta pras famílias, nenhum tipo de contrapartida. Encaramos isso com bastante preocupação, pois sabemos que a área que deve ser afetada é grande.

Seguiremos mobilizados  e não admitiremos que esse tipo de violência continue acontecendo.



Derrubada de casas no Jd. Prainha

Derrubada de casas no Jardim Prainha

Ontem, dia o2 de fevereiro,  os moradores do Jd. Prainha foram surpreendidos pela visita da Defesa Civil da Subprefeitura da Capela do Socorro, junto com a Guarda Ambiental.

Sem aviso prévio, uma casa foi simplesmente derrubada,  e ainda ficou o aviso de que várias outras serão derrubadas nos próximos dias (o prejuízo não foi maior porque os moradores resistiram e começou a chover).

Tratam-se de casas que receberam um auto de interdição há pouco mais de um ano, mas que até hoje não foi dada nenhuma solução aos moradores. Mesmo no caso da casa derrubada, absolutamente nada foi oferecido (nem bolsa-aluguel, nem indenização, nem nada).

Sabemos que esse é só o começo de vários ataques contra a população que vive perto da represa.

Em reunião ocorrida ontem à noite, os moradores decidiram se organizar para evitar  nova derrubada de casas.

Caso os agentes do Estado insistam nessa ação absurda, os moradores irão resistir, e o risco de confronto é grande!

A comunidade está se organizando, e a mobilização será crescente. Mas todo apoio dos que estão na trincheira da luta popular é bem-vindo. Jd. Prainha Luta!

Bora pra mais esta luta!

Veja o vídeo

Despejo no Prainha

 


Rádio Livre no Extremo Sul

Atividade do Coletivo RadioAtivo

No próximo sábado, das 10 as 15 horas, estaremos juntos fazendo programa de rádio, na Associação em Defesa da Moradia do Recanto Cocaia. Errata: o endereço correto é Rua Jameleiro, 48, Recanto Cocaia, Grajaú.

Bora? É nóis!