Arquivo do mês: dezembro 2010

Conjuntura

A produção da cidade e de suas periferias

As cidades concentram hoje, em quase todos os países, e cada vez mais, a maior parte da população do planeta. As periferias urbanas, por sua vez, crescem num ritmo bem mais acentuado do que o restante da cidade, e mesmo segundo previsões conservadoras, como a apresentada pelo relatório ONU-Habitat de 2007, a tendência nas próximas décadas é que bilhões de pessoas morem em favelas, e que a pobreza atinja quase metade da população que vive no meio urbano.

No espaço da cidade estão desenhadas com ferro, fogo, sangue e suor a segregação social, a desigualdade, as espoliações. Na cidade temos as regiões em que se concentram os ricos, e onde imperam o luxo, a ostentação, o consumo desenfreado e destrutivo, os serviços caros – lugares que são literalmente vendidos como “ilhas de riqueza”. Esses espaços, que abrigam os grandes empresários, os grandes dirigentes industriais, os grandes banqueiros, os grandes especuladores (que por vezes são as mesmas pessoas), se confundem com os espaços de poder político, os verdadeiros espaços de decisão do Estado; são espaços vigiados, cheios de câmeras, seguranças privados, policiais, carros blindados, onde a pobreza – mais do que noutros lugares – é crime inafiançável, e o pobre só entra como um mal necessário – na forma de mão-de-obra – e ainda assim de um jeito bem controlado. Nessas regiões os poderes político e econômico têm realidade palpável nas construções, e delas irradiam certa estética, certa linguagem, certos códigos, certos padrões de conduta, certa moral, e uma série de mecanismos que constituem a ideologia burguesa – o conjunto de idéias que servem para legitimar o existente, ocultar suas mazelas, e bloquear sua crítica.

Vinculada a essa dimensão ideológica e simbólica está a dimensão econômica da cidade, pois concentrando um grande número de indústrias e de serviços, bem como o grosso do mercado consumidor, as cidades são elas mesmas um espaço econômico de produção e reprodução capitalista – e um escoadouro de capital sobreacumulado noutras partes -, seja pela indústria da construção civil, seja pela produção da renda da terra (o dinheiro que se pode conseguir mediante aluguel em função da propriedade da terra, e que varia em função da localização, do que existe construído na terra, do marketing, e de tudo o que envolve a especulação imobiliária), seja pela valorização financeira (especulação com as ações das grandes construtoras e incorporadoras, títulos de todas as espécies, créditos hipotecários, etc.), e por aí vai.

Esses processos de valorização e de afirmação do poder capitalista não podem estancar jamais; precisam sempre se repetir e se renovar. A construção e a reestruturação do espaço geográfico, sobretudo urbano, que muitas vezes incluem monumentais destruições e desvalorizações do ambiente construído, é absolutamente vital para a reprodução do capital, e os fluxos de capital e de capital fictício necessitam circular de maneira predatória pelo espaço urbano (basta pensar na recente crise econômica mundial).

Tomando como base a cidade de São Paulo, vemos que, se ainda ontem foram iniciadas a Operação Água Espraiada e a Operação Faria Lima, com suas pontes estaiadas e com a remoção brutal das favelas que lá existiam há décadas, hoje esse processo tem que se concluir (por exemplo, com a extinção da Favela do Jd. Edite), e outras frentes tem que ser criadas, como os “Programas Mananciais”, as “revitalizações” do centro e do centro expandido, os “Expressos Tiradentes” e os “Rodoaneis”, a contratação de grandes obras arquitetônicas, as maquiagens necessárias para se “receber” a Copa de 2014, e por aí vai. Todos esses processos, levados adiante pelo Estado e pelo grande capital, implicam em importantes modificações do espaço urbano, que afetarão muitos milhares de pessoas. Apesar dos enormes investimentos – em obras e propaganda -, dificilmente serão dadas respostas minimamente satisfatórias às populações que serão despejadas ou removidas, o que revela o fundo perverso do sistema capitalista e abre brechas para a organização política e para a luta direta, as quais, se bem direcionadas, poderão atingir diretamente o cerne da acumulação do capital.

Mesmo essa análise inicial já nos conduz a entender a dimensão territorial como estratégica para construção de processos organizativos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, os espaços onde as promessas do sistema – de igualdade, de oportunidade, de justiça, de satisfação, de alegria – são quebradas de um jeito ainda mais violento; onde estão concentradas grandes massas daqueles que têm pouco a perder além dos seus grilhões, mas que, como parte de toda uma longa história de luta, de coragem, de perseverança, têm um mundo a construir.

Lembrando as enchentes

Lembrando as enchentes do verão passado

A temporada de chuvas está se abrindo, e com ela o temor de novas tragédias em comunidades periféricas, como as enchentes e deslizamentos que aconteceram no verão passado. Para relembrar esse período tão difícil, publicamos aqui o vídeo Jd. Lucélia Luta. Que sirva para ficarmos atentos e para reagirmos com ainda mais força caso situações desse tipo se repitam.

Choque de ordem

Onda de barbaridades no Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, o auto-proclamado “poder público” têm conseguido superar em truculência e brutalidade o governo paulistano. Os despejos e a criminalização da pobreza têm se multiplicado, com violência cada vez maior: os últimos absurdos sobre os quais tivemos notícia ocorreram na Comunidade da Restinga.

Para acompanhar esses acontecimentos terríveis, acesse o site da Rede de Comunidades contra a Violência .

No interior de nossas pequenas trincheiras, continuaremos tentando fazer frente a essa escalada de violência contra o povo trabalhador, sabendo que a luta das comunidades pobres cariocas é a nossa própria luta.

Lutas em BH

Comunidade Dandara (Belo Horizonte) sofre nova

ameaça de despejo

A Comunidade Dandara, fruto de uma ocupação organizada de um enorme terreno abandonado em Belo Horizonte, feita em abril de 2009, está sendo novamente ameaçada de despejo. Já são quase dois anos de luta incessante contra o Estado e o grande capital, que abominam e reprimem todo tipo de iniciativa popular que busque se opor à essa sociedade em que a especulação e os lucros são muito mais importantes do que vidas, e em que qualquer afirmação de solidariedade, de espírito de luta e de autonomia é criminalizada.

Hoje só podemos expressar nossa solidariedade à distância; mas não fazemos isso parados, e sim buscando contribuir para o fortalecimento da nossa classe, para que um dia a correlação de forças mude.

Que um esforço como o dos companheiros e das companheiras da ocupação Dandara se torne conquista e seja reconhecido como tal; e que a preservação de um terreno abandonado à serviço da especulação seja tido como verdadeiro crime.

Para mais informações, acesse o blog da Ocupação Dandara.

Nova enchente no Jardim Pantanal

Enchentes e criminalização do povo da periferia – Apoio aos moradores do Jd. Pantanal

Moradores do Jd. Pantanal e militantes do movimento Terra Livre divulgaram atrocidades cometidas pelo Estado contra moradores e vítimas de enchentes na zona leste de São Paulo na última sexta-feira, dia 17 de dezembro.

Desde o ano passado tem sido denunciada a situação de famílias que vivem em território violentado por enchentes criminosas orquestradas pela prefeitura e governo do estado. A área também está na mira dos despejos e reorganização da cidade, e nada foi feito para combater o efeito das águas, que novamente invadiu as casas. Dessa vez, foi ainda pior: ao invés de receber ajuda do Estado, houve repressão por parte da polícia civil e dois moradores foram presos. Seguimos alerta contra a repressão do Estado e estamos juntos na luta contra a violência e criminalização do povo da periferia. Para mais informaçôes clique aqui.

Violência policial em ocupação no Rio de Janeiro

Apoio às famílias da ocupação Guerreiros Urbanos

No último dia 13, o centro do Rio de Janeiro foi, mais uma vez, palco de uma ação truculenta da Polícia Militar contra a população pobre da cidade. No dia anterior, um prédio do INSS, há anos abandonado, foi ocupado por um grupo de famílias sem teto cansadas de esperar pela boa vontade do Poder Público em atender o seu direito à moradia. Como elas deixavam expresso em seu manifesto:

“Ocupamos para mostrar que dos nossos olhos não rolam só as lágrimas de desespero pela injustiça que sentimos na pele todos os dias. Com nossos olhos também vemos que, se é com nossas mãos que a cidade conta para crescer, é com elas que também vamos contar para construir juntos as soluções para nossos problemas. Os direitos de todos também são nossos. Se não nos dão, só nos resta tomá-los.”

No entanto, não demorou mais do que um dia para que a Polícia, em defesa da propriedade privada, da especulação imobiliáriao, e contrária aos direitos elementares do mais pobres, entrasse em ação. Com o uso de muita violência, as esperanças dessas famílias de contruírem juntas uma solução digna para suas vidas foi arrasada. Note-se que, para essa ação de despejo, a Polícia não contou sequer com uma autorização judicial, agindo arbitrariamente.

Fica aqui o nossa solidariedade às famílias da Ocupação Guerreiros Urbanos.

Mais informações e vídeos sobre o caso podem ser obtidos aqui, aqui e aqui.

Debates sobre cultura e luta de classes

Cultura e Luta de Classes

Segue abaixo a programação de um encontro de grupos de teatro organizado pela Brava Companhia, do qual a Rede Extremo Sul foi convidada a participar. O encontro será repleto de debates e apresentações, tendo como tema geral a relação entre o teatro e a luta de classes.

Solidariedade aos moradores das favelas cariocas

Solidariedade aos moradores das favelas cariocas

Guerra contra o crime”; “luta do bem contra o mal”; “mega-operação de pacificação das favelas cariocas”; “a sociedade unida contra a violência”… Quantas vezes essas e outras patacoadas foram repetidas sem parar pela grande mídia, por “especialistas” e por burocratas do Estado, nos últimos dias, entre as imagens de perseguições, prisões, tiroteios, ônibus queimando?

Em meio a toda essa hipocrisia, queríamos expressar nossa solidariedade aos moradores que vivem nas favelas cariocas,  que se encontram ainda mais expostos à discriminação, a ameaças, ao espancamento, a roubos, a execuções sumárias, a estupros, e a toda uma série de mecanismos de opressão, mobilizados pelas ditas “forças de segurança” – o aparato repressivo do Estado, com ocupação das forças armadas em seus territórios (usando o conhecimento acumulado no Haiti, onde as tropas brasileiras há anos cometem todo tipo de atrocidade, e atuam intensamente no sentido de reprimir e evitar processos de organização popular).

São muitas as coisas que esse tipo de fachada midiática busca esconder, mas queríamos falar de apenas uma delas. O tráfico de drogas e o contrabando de armas estão entre as atividades mais importantes do comércio internacional, movimentando e gerando enormes fortunas. Por serem atividades “ilegais”, elas possuem características próprias, mas nem por isso são aberrações, nem desvios em relação ao normal. Ao contrário, são mercados capitalistas que envolvem grandes empresários, chefes de Estado, políticos, juízes, polícia, e no caso do mercado de varejo carioca, envolvem também facções criminosas e as milícias.

As lutas que se travam em torno desses mercados são lutas inter-capitalistas, em disputa pelo controle e pela organização deles, de modo a torná-los mais lucrativos e menos danosos para os grupos dominantes da vez. Além disso, esses mercados se alimentam das desigualdades e da pobreza, e se misturam com as estratégias de contenção da população pobre,  o que se dá por meio da da repressão, do terrorismo de Estado e pela espetacularização midiática que criminaliza a pobreza.

Sim, a corda estoura no lado mais fraco; é por isso que geralmente quem sai perdendo nesse jogo – pagando, por vezes, com a própria vida – são as populações pobres que habitam os morros.

Ao que tudo indica, este processo, simbolizado pela instalação das UPP, deve inaugurar um novo modelo de contenção das insatisfações sociais no cotidiano dos morros cariocas, e talvez no de todas as periferias do Brasil. E será preciso tempo e persistência para poder interpretar e aprender a atuar neste outro cenário que se desenha. Por isso, esperamos que seja possível a organização popular desses moradores, que se aproveite as brechas que surgirem nessa reestruturação do “crime” no Rio de Janeiro, para que um dia o lado mais fraco não seja o nosso. Só assim colocaremos fim à verdadeira guerra; não à “guerra ao terror”, ou a “guerra ao crime organizado”, jargões mentirosos, mas a guerra de classes, em que nos encontramos mergulhados.

[Recomendamos a leitura e o acompanhamento da situação através do sítio dos companheiros e companheiras da Rede de Comunidades e Movimentos Contra Violência do Rio de Janeiro:

"Repúdio ao revide violento das forças de segurança pública no Rio de Janeiro, e às violações aos direitos humanos que vêm sendo cometidas" - http://www.redecontraviolencia.org/Documentos/764.html

Sítio da Rede Contra Violência (RJ) - http://www.redecontraviolencia.org]

TODA SOLIDARIEDADE AOS MORADORES DAS FAVELAS CARIOCAS!